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Entre a mentira sintética e a fraude por encomenda

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28.02.2026

Há duas economias paralelas a crescer à nossa frente, e ambas dependem da mesma matéria-prima: a confiança.

A primeira produz realidades verosímeis (imagens, vídeos, vozes, textos) para manipular perceções, vender enganos, roubar identidades ou acender conflitos. A segunda vende atalhos académicos, prometendo resultados sem aprendizagem, diplomas sem competência e mérito sem trabalho. À primeira vista, parecem universos distintos: de um lado, a desinformação e os deepfakes; do outro, os academic misconduct services. Mas, no essencial, obedecem à mesma lógica que é transformar fragilidades humanas em negócio.

A ligação entre estes dois fenómenos é mais profunda do que parece. Nas fake news e nos deepfakes, o alvo é o juízo público, nos serviços de fraude académica, o alvo é o juízo avaliativo. Num caso, contamina-se o espaço cívico, no outro, degrada-se o espaço formativo. E o mecanismo repete-se através da captação da atenção, da personalização da persuasão, a explorar ansiedade e urgência, e aproveitar uma perceção reduzida do risco. A IA generativa veio acelerar este ciclo, tornando o conteúdo mais convincente, mais barato e mais fácil de escalar. O International AI Safety Report 2025 sublinha precisamente que o conteúdo gerado por IA tende a tornar-se mais persuasivo à medida que os sistemas melhoram, que os utilizadores passam a depender mais deles e que os modelos são afinados com feedback humano.

Em Portugal, os sinais são claros. Segundo o Digital News Report Portugal 2025 , 71% dos inquiridos dizem estar preocupados com a desinformação e com a dificuldade em distinguir o que é real do que é falso online, acima da média global (58%). O mesmo relatório mostra ainda que Portugal continua entre os países mais preocupados com este tema. Estes dados merecem atenção por, pelo menos, duas razões. Primeiro, porque mostra que o problema deixou de ser periférico, já não é uma preocupação de nicho, é uma inquietação socialmente disseminada. Segundo, porque revela um paradoxo. Apesar de Portugal manter níveis relativamente elevados de confiança nas notícias, quando comparado com outros países, essa confiança está a descer, 54% em 2025, o valor mais baixo da série no país, menos 10 pontos face a 2015. Em termos práticos, isto significa que a sociedade portuguesa vive ao mesmo tempo com elevada sensibilidade à desinformação e com uma erosão gradual da confiança no ecossistema informativo. E essa combinação é particularmente delicada.

No plano internacional, a preocupação deixou há muito de ser apenas mediática e passou a ser estratégica. O World Economic Forum  tem colocado repetidamente a desinformação entre os principais riscos globais de curto prazo, chamando a atenção para os efeitos sobre a coesão social, a governação e a confiança pública.

A isto soma-se a dimensão visual e emocional dos deepfakes. Mesmo quando o debate público se fixa em casos virais e aparentemente caricatos, o problema real é mais sério: fraude, usurpação de identidade, extorsão, manipulação sexualizada, campanhas de difamação e ataques à reputação. A evolução técnica está a reduzir o custo de produção e a aumentar a qualidade percebida, exatamente a combinação que favorece o crime em escala. O relatório internacional de segurança em IA já alerta para o agravamento deste risco; e fontes recentes apontam para uma subida abrupta de conteúdos sintéticos abusivos em contextos de exploração sexual, com impactos humanos e institucionais profundos.

O texto da LSE, The growing market for student academic misconduct services, é especialmente importante porque retira a discussão do plano da moral individual e coloca-a no plano da estrutura de mercado. Já não estamos apenas a falar de “alunos que copiam”. Estamos perante uma oferta profissionalizada, persistente e adaptativa, que usa técnicas de marketing digital, segmentação e presença em plataformas para captar estudantes. A análise descrita no texto identifica um fluxo regular de conteúdo promocional e mostra como estas práticas vão sendo normalizadas no quotidiano digital de quem estuda.

Quando cruzamos isto com dados internacionais, a gravidade aumenta. A autoridade australiana TEQSA tem vindo a reportar ações sucessivas contra serviços de contract cheating, incluindo o bloqueio de websites e de perfis/publicações em redes sociais, bem como alertas sobre novas formas de recrutamento, com abordagens cada vez mais diretas e contextuais aos estudantes. A mesma autoridade tem também advertido para riscos associados, como chantagem, roubo de identidade e fraude financeira. Ou seja, a fraude académica deixa de ser apenas um problema pedagógico e entra claramente no domínio criminal e da proteção do consumidor.

Há ainda um ponto que costuma ser subestimado, a prevalência real pode estar bastante acima do que aparece nos inquéritos tradicionais. Num estudo australiano, com 4.098 estudantes de seis universidades e seis instituições independentes, verificou-se que 2,46 vezes mais estudantes admitiram ter participado em fraude académica por encomenda através da submissão de trabalhos escritos por terceiros quando a honestidade era explicitamente encorajada. Os autores estimaram que 7,9% dos estudantes recorrem a serviços comerciais de fraude académica para comprar e submeter trabalhos. Acresce que 11,4% delegam avaliações, usando trabalhos pré-elaborados obtidos em plataformas comerciais de partilha de ficheiros. Este resultado muda o centro da discussão, a dimensão do problema pode parecer menor no discurso, mas revelar-se substancialmente maior na prática.

Embora em Portugal a discussão pública tenda a centrar-se no plágio em momentos pontuais, a evidência empírica recente aponta para um fenómeno mais amplo. Num estudo de 2025 com 1.398 estudantes da Universidade do Porto (14 faculdades), quase 95% admitiram ter praticado pelo menos um dos comportamentos indevidos avaliados; o plágio e certas formas de fraude em exame surgem entre as práticas mais prevalentes (acima de 70%). Importa sublinhar que isto não significa que todos tenham cometido infrações com a mesma gravidade. Mas mostra, com clareza, que existe um fator estrutural, uma cultura de permissividade e normalização de comportamentos desviantes.

É aqui que o cruzamento com as fake news se torna especialmente revelador. Tanto na desinformação como na fraude académica, o comportamento desviante espalha-se por imitação, normalização e sensação de impunidade. Se “toda a gente partilha sem verificar”, verificar passa a parecer excesso. Se “toda a gente usa ajuda externa opaca”, a integridade começa a parecer ingenuidade. O que está em causa não é apenas a verdade factual ou a honestidade individual, mas a erosão dos custos sociais da mentira.

Na sociedade em geral, os impactos são múltiplos e acumulativos: perda de confiança nas instituições, polarização, maior vulnerabilidade à fraude financeira, danos reputacionais irreversíveis, violência sexual baseada em imagem e sobrecarga dos sistemas judiciais, regulatórios e policiais. Quando a fronteira entre o autêntico e o sintético se torna incerta, a mentira já não precisa de ser perfeita; basta ser suficientemente plausível durante tempo suficiente.

No ensino superior, o dano é mais subtil e, por isso mesmo, mais perigoso. Não se limita a uma nota injusta. Afeta a validade da avaliação, a confiança entre docentes e estudantes, a credibilidade dos diplomas, a segurança de profissões reguladas e a própria missão da universidade enquanto produtora de conhecimento fiável. Um estudante que compra desempenho aprende uma lição metacurricular devastadora, a aparência de competência pode substituir a competência. E essa lógica, quando transposta para a vida profissional, é precisamente a mesma que alimenta desinformação organizada, fraude empresarial e manipulação pública.

Seria, no entanto, um erro responder a este cenário apenas com alarmismo. A mesma pressão que a IA e os mercados de fraude exercem está também a forçar instituições a modernizar práticas que já precisavam de revisão.

No campo da informação pública, os dados portugueses apontam para uma direção promissora, a formação em literacia mediática associa-se a comportamentos de verificação mais ativos e a maior recurso a fontes oficiais, marcas noticiosas de confiança e fact-checkers. Quem teve formação deste tipo apresenta diferenças visíveis em práticas concretas, por exemplo, maior uso de fontes oficiais e verificadores, e maior envolvimento diário com notícias. Isto não elimina a desinformação, mas melhora hábitos. E, em ecossistemas digitais, os hábitos contam muitas vezes mais do que os slogans.

No ensino superior, a oportunidade é semelhante, desde que se passe de uma lógica de “policiamento” para uma lógica de desenho institucional inteligente. Avaliações mais autênticas, processos com registos (esboços, versões, reflexão sobre escolhas), momentos orais curtos de validação, tarefas contextualizadas e políticas claras sobre o uso legítimo de IA podem reduzir o valor de mercado dos serviços de fraude. Além disso, a evidência sobre perceção de sanções e normas de pares mostra que comunicar bem regras, exemplos e consequências não é um detalhe administrativo; é prevenção.

Também na esfera digital mais ampla existe margem para uma resposta robusta. O International AI Safety Report 2026 assinala que, em vários cenários, medidas defensivas podem ser eficazes quando combinam capacidade técnica, aumento de custos para os atacantes e cooperação institucional. Já no plano prático, a deteção de conteúdo sintético e a verificação forense devem ser tratadas como apoio probabilístico à decisão, não como oráculos infalíveis. Essa prudência é essencial para evitar dois erros simétricos, acreditar em tudo e desconfiar de tudo.

Se quisermos sair de respostas meramente reativas, então a estratégia tem de ser articulada e multidimensional. No plano social, isso implica investir de forma continuada em literacia mediática, ensinar práticas de verificação, valorizar o jornalismo de referência, criar canais de denúncia simples e acessíveis e aplicar uma regulação equilibrada das plataformas. Em Portugal, os dados disponíveis indicam que a formação nesta área está associada a comportamentos mais sólidos de consumo crítico e validação da informação. No plano institucional, tornam-se essenciais políticas claras sobre o uso de IA, modelos de avaliação consistentes, mecanismos céleres de resposta à fraude e estruturas de apoio a vítimas de extorsão ou chantagem, incluindo em contexto académico. A experiência regulatória internacional mostra, aliás, que este fenómeno já ultrapassa largamente o espaço da sala de aula. Ao nível individual, são indispensáveis hábitos de prudência digital desde a gestão cuidada da partilha de imagem e voz até à utilização de autenticação multifator e à confirmação por canais alternativos, bem como atenção aos sinais de manipulação. Nenhuma destas medidas resolve o problema por si só; em conjunto, porém, reduzem de forma significativa a vulnerabilidade.

As fake news sintéticas e os serviços de fraude académica são, no fundo, duas faces da mesma crise contemporânea, a mercantilização da credibilidade. Uma compra cliques e crença, a outra compra avaliações e certificados. Ambas prosperam quando a sociedade delega demasiado, verifica de menos e normaliza pequenos desvios até estes se tornarem estrutura.

Ainda assim, o cenário não é fatalista. Há sinais de resposta regulatória, pedagógica, tecnológica e cultural. O que falta, muitas vezes, é articulação. E aqui a universidade tem uma responsabilidade especial, não apenas proteger exames e trabalhos, mas formar cidadãos capazes de distinguir evidência de aparência, argumento de simulação e ajuda legítima de terceirização fraudulenta. Num tempo em que a falsificação se torna cada vez mais convincente, a educação não pode limitar-se a transmitir conteúdos. Tem também o dever de treinar discernimento.

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