Entre a mentira sintética e a fraude por encomenda
Há duas economias paralelas a crescer à nossa frente, e ambas dependem da mesma matéria-prima: a confiança.
A primeira produz realidades verosímeis (imagens, vídeos, vozes, textos) para manipular perceções, vender enganos, roubar identidades ou acender conflitos. A segunda vende atalhos académicos, prometendo resultados sem aprendizagem, diplomas sem competência e mérito sem trabalho. À primeira vista, parecem universos distintos: de um lado, a desinformação e os deepfakes; do outro, os academic misconduct services. Mas, no essencial, obedecem à mesma lógica que é transformar fragilidades humanas em negócio.
A ligação entre estes dois fenómenos é mais profunda do que parece. Nas fake news e nos deepfakes, o alvo é o juízo público, nos serviços de fraude académica, o alvo é o juízo avaliativo. Num caso, contamina-se o espaço cívico, no outro, degrada-se o espaço formativo. E o mecanismo repete-se através da captação da atenção, da personalização da persuasão, a explorar ansiedade e urgência, e aproveitar uma perceção reduzida do risco. A IA generativa veio acelerar este ciclo, tornando o conteúdo mais convincente, mais barato e mais fácil de escalar. O International AI Safety Report 2025 sublinha precisamente que o conteúdo gerado por IA tende a tornar-se mais persuasivo à medida que os sistemas melhoram, que os utilizadores passam a depender mais deles e que os modelos são afinados com feedback humano.
Em Portugal, os sinais são claros. Segundo o Digital News Report Portugal 2025 , 71% dos inquiridos dizem estar preocupados com a desinformação e com a dificuldade em distinguir o que é real do que é falso online, acima da média global (58%). O mesmo relatório mostra ainda que Portugal continua entre os países mais preocupados com este tema. Estes dados merecem atenção por, pelo menos, duas razões. Primeiro, porque mostra que o problema deixou de ser periférico, já não é uma preocupação de nicho, é uma inquietação socialmente disseminada. Segundo, porque revela um paradoxo. Apesar de Portugal manter níveis relativamente elevados de confiança nas notícias, quando comparado com outros países, essa confiança está a descer, 54% em 2025, o valor mais baixo da série no país, menos 10 pontos face a 2015. Em termos práticos, isto significa que a sociedade portuguesa vive ao mesmo tempo com elevada sensibilidade à desinformação e com uma erosão gradual da confiança no ecossistema informativo. E essa combinação é particularmente delicada.
No plano internacional, a preocupação deixou há muito de ser apenas mediática e passou a ser estratégica. O World Economic Forum tem colocado repetidamente a desinformação entre os principais riscos globais de curto prazo, chamando a atenção para os efeitos sobre a coesão social, a governação e a confiança pública.
A isto soma-se a dimensão visual e emocional dos deepfakes. Mesmo quando o debate público se fixa em casos virais e aparentemente caricatos, o problema real é mais sério: fraude, usurpação de identidade,........
