Mentir com meias-verdades
Somos animais de palavra. A palavra descreve, sintetiza, configura e representa. A palavra organiza e orquestra. A palavra é memória e é futuro. E, com engenharia incansável, a palavra esboça e preenche as ideias que se ligam entre si. A palavra mergulha no caos, estrutura-o com a lógica e desenha desejos, em perspectiva e de forma abstracta; num “vou por aqui” perseverante e tenaz. A palavra amassa sentimentos e condensa-os em imagens, fazendo com que sentir seja conhecer. E faz com que isso tudo se torne figurativo e vibrante, e se encha de movimento e intensidade plástica. A palavra é o instrumento com que se conhece e se pensa. E até o silêncio é um pantone de letras com que se comunica antes que a palavra tenha uma forma ou um som ou um nome.
A palavra nunca existe dissociada da operação mental com que liga e religa: a palavra é a primeira matemática das coisas. Mesmo quando serve para não dizer nada, ela demonstra: a palavra comunica para além daquilo que queremos que diga. Porque fala com o auxílio do rosto e do corpo. E com os olhos, claro. E com o silêncio, também. Por tudo isso, não temos como não comunicar. Não querer dizer nada ou iludir e mentir com a........
