A sedução do fora-da-lei: porque votamos no grande criminoso
Para a mente bem-pensante, educada nos valores do consenso liberal e da etiqueta democrática, o cenário político contemporâneo é um enigma indesejado. Como é possível que figuras que violam sistematicamente as normas de conduta — que insultam, que mentem, que ignoram protocolos institucionais ou que acumulam processos judiciais — não sejam punidas nas urnas, mas sim recompensadas?
O fenómeno é transversal e ignora as velhas bússolas ideológicas. Vemo-lo em Donald Trump nos Estados Unidos, em André Ventura em Portugal, em Jair Bolsonaro no Brasil, ou em figuras inclassificáveis como Nayib Bukele em El Salvador. À superfície, pouco têm em comum. Mas, fenomenologicamente, partilham o mesmo ADN: são a encarnação política do “arruaceiro”.
O comentador televisivo, perplexo, repete que eles ganham “apesar” do seu mau comportamento. A realidade, porém, é muito mais desconfortável e exige uma coragem analítica diferente: eles não ganham apesar da transgressão; eles ganham por causa dela.
O eleitorado não está cego. O eleitorado está a ver exatamente o que essas figuras são. E o que vê não lhe causa repulsa, causa-lhe um fascínio magnético que a moralidade convencional é incapaz de desarmar.
Para decifrar este fascínio, é inútil recorrer à ciência política tradicional. Temos de recuar a 1921 e ao ensaio Para uma Crítica da Violência (Zur Kritik der Gewalt), de Walter Benjamin. O filósofo alemão detém-se sobre uma figura que a sociologia ignora: o “Grande Criminoso” (der große Verbrecher).
Benjamin nota........
