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A mecanização do destino: o alerta da Magnifica Humanitas

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08.06.2026

A condição humana sempre foi um exercício de navegação entre determinismos. A crença numa autonomia incondicionada não passa, na maioria das vezes, de um artifício retórico, uma ficção reconfortante que as sociedades erguem para mascarar as engrenagens que, de facto, as movem. Somos condicionados pela nossa biologia, pela nossa geografia, pelas estruturas económicas que nos absorvem e pelas teias de afetos que nos prendem. A verdadeira tragédia do nosso tempo, marcada pela hiperdigitalização e pela Inteligência Artificial, não reside na perda de uma liberdade absoluta que nunca possuímos. Reside, antes, na automatização e na ocultação desse mesmo condicionamento. A tecnologia contemporânea não nos rouba a autonomia; ela anestesia a nossa lucidez.

É sob a luz fria desta anestesia que a Carta Encíclica Magnifica Humanitas, promulgada pelo Papa Leão XIV a 15 de maio de 2026, adquire a sua verdadeira dimensão filosófica. Despido do verniz confessional, o documento afirma-se como uma autópsia rigorosa à nossa demissão ontológica na era digital. O texto confronta-nos não com a maldade intrínseca das máquinas, mas com o “paradigma tecnocrático” que normalizámos: a aceitação tácita de que a eficiência e a otimização algorítmica são os únicos critérios válidos para gerir a existência.

A primeira grande ilusão que a encíclica desmantela é a da neutralidade técnica. Um algoritmo não é um espelho plano e assético do real; é uma arquitetura de escolhas prévias, prioridades e exclusões, possuindo o rosto daqueles que o concebem e financiam. O problema, contudo, agudiza-se quando percebemos a profunda utilidade psicológica desta opacidade. O fascínio humano pela “caixa negra” da computação global não deriva de um desejo de perfeição, mas de uma calculada fuga à responsabilidade. Delegar o ato de........

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