O Peso do Tempo (e da Podridão) na Praça Hugo Chávez
A Arqueologia Urbana da Amadora
Há dias em que gosto de caminhar pela Amadora sem um rumo definido. Eu, a minha pipoca, o meu pipoco e a máquina fotográfica. Os quatro sem destino, apenas para ouvir o que a cidade tem para nos dizer. Nem sempre ela fala da mesma forma. Às vezes manifesta-se através das pessoas: os miúdos a sair das escolas, os reformados nas esplanadas, os comerciantes na sua teimosia diária.
Outras vezes, fala através das coisas: dos prédios, das fachadas, das placas e dos nomes.
Os nomes são particularmente interessantes porque têm uma qualidade rara: sobrevivem. Sobrevivem aos entusiasmos que os criaram, às circunstâncias que os justificaram e, muitas vezes, até à memória daqueles que os escolheram. Ficam ali, como velhos atores que continuam em palco muito depois de o público ter esquecido a peça. Quando abrandamos o passo, reparamos nestes detalhes. Uma montra que não muda há anos, um café encerrado mas intocado pelo tempo, um cartaz desbotado. Pequenos vestígios que coexistem, como se a cidade fosse um arquivo incapaz de deitar fora o que já não usa.
O Fóssil Político de Alfragide
Foi precisamente por causa de uma dessas relíquias que me detive na Praça Hugo Chávez, em Alfragide. Mesmo quando julgo caminhar sem destino, acabo invariavelmente arrastado para o magnetismo das zonas comerciais em terrenos industriais, rudes nos seus passeios, agressivas nos acessos, mas centrais na vida urbana.
E lá estavam as placas entre pedras secas, ervas queimadas pelo verão e pássaros de metal pousados para sempre.
Já não sinto indignação a olhar para aquelas placas. O que disse na Assembleia Municipal em 2024 foi claro e continua a sê-lo. O que mudou não foi a minha opinião sobre a praça. Foi a forma como passei a olhar para ela. Hoje interessa-me menos a discussão que lhe deu origem e mais aquilo que a sua permanência continua a dizer sobre a cidade.
Há nomes que envelhecem naturalmente e se fundem com a rua. E depois há nomes como este, que ficam presos num instante específico da História, incapazes de acompanhar o mundo em seu redor.
Olhar para a Praça Hugo Chávez é ser transportado para um tempo em que a Venezuela representava, para alguns, uma promessa ousada. Aquilo que outrora foi apresentado como uma homenagem ao futuro é, hoje, uma cápsula do passado. É a mesma sensação de encontrar uma fotografia antiga numa gaveta: apercebemo-nos de que ela já não fala apenas da pessoa retratada, mas sobretudo da........
