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O Brasil é de Ventura: A Consolidação da Direita e o Gigante

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16.02.2026

Na primeira volta, escrevi nestas páginas sobre como o “Texas Brasileiro” (Rio Grande do Sul) tinha sido uma ilha de resistência moderada à onda de André Ventura. Agora, fechadas as urnas da segunda volta, os dados consulares pintam um quadro definitivo: o Brasil escolheu a Direita de forma inequívoca, mas o verdadeiro vencedor continua a ser a abstenção.

Ao analisarmos os números frios, a vitória de André Ventura no Brasil é esmagadora. O candidato da Direita venceu em praticamente todas as praças estratégicas, e em algumas com margens de “ditador africano”.

A Onda Azul no Norte e Sudeste

Se na primeira volta o Norte e Nordeste já tinham dado sinais de viragem, a segunda volta confirmou a conversão total. Em Belém do Pará, Ventura teve uns impressionantes 73,89%, esmagando António José Seguro. Em Fortaleza, alcançou quase 65% e no Recife ultrapassou os 60%.

Nos grandes centros urbanos, a tendência manteve-se. Em São Paulo, o maior círculo eleitoral fora de Portugal, Ventura subiu dos 47% da primeira volta para quase 59% agora. No Rio de Janeiro, conquistou 53,66%.

Estes números provam uma tese crucial para a Direita portuguesa: o eleitorado imigrante, quando polarizado entre o Socialismo (Seguro) e a Direita Nacional (Ventura), não hesita. A transferência de votos dos candidatos moderados da primeira volta (Marques Mendes e Cotrim) foi quase integralmente para Ventura. O eleitor de direita no Brasil é pragmático: rejeita o PS a qualquer custo.

A Exceção Gaúcha (e o crescimento silencioso)

E o Rio Grande do Sul? O “estado mais conservador” continua a ser a única exceção no mapa brasileiro. Em Porto Alegre, António José Seguro venceu com 54% contra 46% de Ventura.

Contudo, uma leitura atenta mostra que a Direita também cresceu aqui. Na primeira volta, Ventura tinha apenas 25% no RS. Agora, saltou para quase 46%. Isto significa que, mesmo no reduto mais institucional e avesso ao populismo, o eleitor conservador “tapou o nariz” e votou em Ventura para travar a esquerda. O Rio Grande do Sul resistiu, mas a margem estreitou-se drasticamente.

O Gigante Adormecido: Um Círculo Eleitoral Desperdiçado

Mas a análise mais importante — e que Lisboa tende a ignorar — não está em quem ganhou, mas em quem não foi votar.

Os números de inscritos nos consulados brasileiros são colossais. Só o consulado de São Paulo tem mais de 144.000 eleitores inscritos. O Rio de Janeiro tem mais de 103.000. Para se ter uma ideia da dimensão, o círculo de São Paulo sozinho tem mais eleitores do que muitos distritos inteiros em Portugal Continental (como Portalegre ou Bragança).

No entanto, a taxa de participação é anémica. Em São Paulo, votaram apenas 2,11% dos inscritos. Em Curitiba, 2,23%. Mesmo em Belém, onde a participação foi mais alta, não passou dos 10%.

O Brasil tem, em teoria, poder demográfico para eleger ou derrotar um Presidente da República Portuguesa. Existe aqui um “Gigante Adormecido” de centenas de milhares de votos que, na sua esmagadora maioria, tendem à Direita.

O recado destas eleições é duplo: André Ventura consolidou-se como a voz da diáspora no Brasil, conquistando desde os redutos lulistas do Nordeste até aos liberais de São Paulo. Mas a Direita portuguesa tem um desafio maior: se conseguir mobilizar a abstenção no Brasil, torna-se imbatível. Enquanto 98% dos luso-brasileiros ficarem em casa, Portugal continuará a ser decidido apenas na Europa.

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