Os salários não são o problema português
Ou melhor: são um problema. Mas não são “o problema”.
A discussão pública portuguesa tem uma característica curiosa. Passamos uma quantidade extraordinária de tempo a falar de salários. Falamos dos salários baixos, dos salários médios, do salário mínimo, dos salários dos jovens, dos médicos, dos professores, dos engenheiros e de praticamente toda a gente que receba um recibo de vencimento.
O que raramente discutimos é porque razão os salários são aquilo que são.
Sobretudo, continuamos a discuti-los como se fossem uma escolha.
Nos últimos dias voltou a discutir-se o custo de pagar salários mais elevados em Portugal. Em alguns casos, pagar melhor implica um aumento desproporcionado do custo para a empresa, não apenas pelo salário em si, mas pela forma como o sistema está desenhado. Como quase sempre acontece, a conversa centrou-se imediatamente nos impostos. Uns apontaram o dedo à carga fiscal. Outros defenderam a progressividade do sistema. Cada lado ocupou rapidamente a sua posição habitual.
Talvez a questão mais interessante esteja noutro sítio.
O verdadeiro problema português poderá até nem ser fiscal, mas estratégico.
Há pelo menos vinte anos que o país diz querer exatamente as mesmas coisas: mais produtividade, mais qualificação, mais inovação, mais valor acrescentado, mais retenção de talento e mais crescimento económico.
São objetivos consensuais. Surgem em programas de governo, em relatórios empresariais, em estudos académicos e em discursos políticos de praticamente todas as cores.
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