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O boné que Reagan nunca usou

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23.05.2026

A gramática da nostalgia começou com Reagan, passou por Bill Clinton e acabou transformada por Trump numa identidade permanente

Trump não inventou o MAGA. Fez algo mais inteligente. Transformou uma frase antiga numa identidade permanente. Hoje, “Make America Great Again” parece inseparável de Donald Trump, do boné vermelho, dos comícios, dos memes, das guerras culturais e de uma política onde até um copo de leite de aveia pode ser apresentado como ameaça civilizacional. Funciona bem como narrativa, mas merece alguns reparos.

A materialidade do MAGA é mais antiga, mais contraditória e muito mais complexa do que parece. A associação entre o MAGA e Ronald Reagan foi-se perdendo com o tempo. Ainda mais inesperado é recordar que o homem ligado ao primeiro MAGA assinou a maior amnistia migratória da história americana. Se isto fosse ficção, pareceria excesso de ironia.

Em 1980, Reagan usava frequentemente o slogan “Let’s Make America Great Again”. Está em discursos, pins, cartazes e material oficial hoje preservado nos arquivos históricos americanos.

O detalhe importante é o “Let’s”. Parece irrelevante. Não é. “Let’s Make America Great Again” soa a convite nacional. Reagan falava para uma América cansada da inflação, do pós‑Vietname e do pessimismo dos anos Carter. O tom era quase terapêutico. O país podia recuperar confiança. O futuro ainda podia correr bem.

Décadas depois, Trump remove o “Let’s”. Fica apenas “Make America Great Again”. A diferença parece mínima. Politicamente, muda tudo. Reagan convidava. Trump já não convida. Impõe. Reagan sugeria reconstrução coletiva. Trump promete restauração. Talvez o trumpismo inteiro esteja escondido nesta pequena amputação gramatical.

Há outro detalhe importante: para Reagan, o slogan nunca foi religião identitária. Era apenas mais uma ferramenta de campanha. Convivia com “Morning in America”, “A New Beginning” e........

© Observador