Enquanto não sabemos
Tenho uma doente que não consegue comer.
Não é falta de apetite.
Há uma doença oncológica avançada e uma massa que comprime o esófago por fora. Como uma mão que aperta com força um tubo elástico. Conseguiram passar uma sonda muito fina. O suficiente para dizer que há uma sonda. Não necessariamente o suficiente para alimentar verdadeiramente uma pessoa.
E agora não sei o que fazer com ela.
E esta talvez seja uma das situações mais difíceis para um médico.
Não porque achemos que temos de saber tudo. Essa ilusão desaparece relativamente cedo na carreira.
Mas porque há uma diferença entre não sabermos uma coisa e não sabermos o que fazer por uma pessoa.
Várias especialidades já fizeram a sua parte.
Umas ajudaram a chegar ao diagnóstico. Outras procuraram uma forma de ultrapassar um obstáculo quase intransponível. A Nutrição tenta fazer caber necessidades muito grandes numa via demasiado pequena.
Há ainda a Fisioterapia. A Terapia da Fala. Os enfermeiros, que entram naquele quarto muitas mais vezes por dia do que qualquer médico. Os auxiliares, que cuidam de tudo aquilo que raramente aparece nos relatórios clínicos, mas continua a ser necessário quando uma pessoa adoece.
Há um mundo inteiro à volta daquela mulher.
E, no meio de........
