E se fosse meu?
Há uma altura da vida em que começamos a medir a idade dos doentes pela nossa. Ou pela dos nossos.
Hoje ventilámos um homem de quarenta e um anos. Quarenta e um. Não sei se vai sobreviver. Foi transferido para outro hospital e, até à última notícia que tive, continuava vivo. Espero que continue. Espero que um dia acorde. Espero que volte para casa e que eu nunca mais saiba nada dele, porque às vezes, na urgência, não voltar a saber de alguém é a melhor notícia que podemos receber. Mas não houve muito tempo para pensar nisso. Havia mais de cem doentes em perfil de urgência, dois assistentes de Medicina Interna, nenhuma vaga de internamento e uma porta que continuava aberta. Os doentes continuaram a chegar.
Horas depois, entrou um homem de sessenta anos com um AVC extenso. Autónomo. Independente. Fazia a vida dele. Mais novo do que os meus pais. E foi aí que surgiu aquele pensamento. E se fosse meu?
A certa altura, isto começa a acontecer-nos. Quando somos médicos muito novos, um doente de sessenta anos é um homem de sessenta anos. Depois envelhecemos. E os números começam a ganhar rostos. Sessenta anos é a idade dos........
