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As vítimas da democracia

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29.04.2026

Durante muito tempo, o Partido Comunista viveu dentro da democracia com um capital (os comunistas que me perdoem a má escolha da palavra) muito próprio. Vivia, não do que era, mas do que tinha sido. Toda a gente o sabe. O Partido Socialista, depois do confronto intenso, e com a bonomia do vencedor, tinha sempre o cuidado de frisar o respeito pelos combatentes anti-fascistas, e a história clandestina do Partido permitia que, enquanto por todo o mundo se associava o comunismo à repressão, a foice em Portugal pudesse ainda talhar um capítulo na História da liberdade.

O PCP aproveitou; o estatuto de vítima foi o escudo mais potente contra a pressão que, por toda a Europa, levou os partidos comunistas a aguarem o discurso, até se dissolverem definitivamente no meio da espuma social-democrata. Enquanto em Itália se ia do eurocomunismo à quase extinção, em Inglaterra o Partido Trabalhista abolia a Cláusula IV (que defendia a nacionalização dos meios de produção), Portugal tinha uma bóia de salvação, que permitia que o PCP se mantivesse comunista sem escândalo: quem clamava contra o capital não era um implacável soviético, era uma vítima.

Esta circunstância serviu alguns dos propósitos do Partido, permitiu que ele beneficiasse de uma indulgência excepcional, manteve-o vivo, para inveja de todos os comatosos convivas (mais uma vez, má escolha) da Internacional, mas também gerou efeitos inesperados. O Partido foi percebendo, com resignação, que não era mais forte do que a sua própria história. Pouco interessava o que dizia, Portugal ouvia-lhe sempre na voz os gritos de um torturado. Estava vivo,........

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