A ameaça carcerária: o que um preso do PCC revela a Portugal
Numa cela do Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha, a Polícia Judiciária apreendeu um manuscrito com dez instruções e a assinatura “O Líder”. O documento, conhecido no fim de setembro, é atribuído pela investigação ao alegado chefe de seis brasileiros em prisão preventiva por 15 assaltos a bancos entre 2024 e 2025. As ordens: alinhar os advogados, silêncio nos interrogatórios, não citar familiares nem o chefe sob pena de morte, controlar duas mulheres ligadas ao grupo, comunicar apenas através dos advogados e, no décimo ponto, “todos devem ser extraditados”. Segundo o relatório final da PJ, parte do dinheiro dos assaltos seguiu para o Brasil em transferências fracionadas, incluindo para um condenado por tráfico internacional de Ponta Porã e para um homem referenciado pelas autoridades brasileiras como membro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Trabalhei mais de 23 anos na Polícia Civil de São Paulo, nas divisões de crime organizado e de narcotráfico, o DEIC e o DENARC, a investigar diretamente o PCC. Li o manuscrito de Caldas da Rainha como quem reconhece uma caligrafia. A expressão “sintonizar os advogados” pertence ao vocabulário da organização, cujas instâncias de decisão se chamam sintonias. O silêncio obrigatório, a proteção do nome do chefe e o controlo das mulheres e dos familiares são a rotina disciplinar que o PCC impõe aos seus presos em qualquer pavilhão de São Paulo. Há, porém, sinais de que o papel não emana da estrutura central. A organização não tem “Conselho” nem assina como “O Líder”; as suas ordens, os salves, circulam em nome do Comando e a cultura interna rejeita o personalismo. O que a PJ apreendeu parece ser o método do PCC aplicado por quem o aprendeu, sem que se possa ainda falar numa ordem da organização. A diferença determina o tipo de resposta, e é a primeira coisa que Portugal precisa de estabelecer.
O que São Paulo demorou a perceber
O PCC nasceu em 1993, numa prisão brasileira, menos de um ano depois do massacre do Carandiru, em que a Polícia Militar matou 111........
