Do prado ao prato com escala em Ormuz
Dói na carteira, eu sei. Paramos no corredor dos laticínios ou em frente à vitrine do talho, olhamos para a etiqueta do preço e o suspiro de indignação é automático. A partir daí, o desporto nacional é previsível: culpa-se a ganância do retalhista, aponta-se o dedo ao intermediário e chora-se o agricultor. É uma narrativa reconfortante, mas intelectualmente preguiçosa. A verdade é que, por muito que aquele bife ostente um orgulhoso selo de “Produzido em Portugal”, o nosso prado verde e tranquilo fez, inevitavelmente, uma escala invisível no Estreito de Ormuz.
A Europa inebriou-se com a poesia da sua estratégia “Do Prado ao Prato”. Adoramos a imagem bucólica do agricultor de proximidade que nos entrega a comida imaculada à porta. Mas convém acordarmos para a realidade: a agricultura e a pecuária modernas, que nos garantem a maior segurança alimentar da História, não se fazem apenas com sol, chuva e boas intenções. Fazem-se com energia. Muita energia. E ignorar isto é não perceber absolutamente nada sobre o custo do nosso prato.
Neste momento, na Península Ibérica, vivemos deslumbrados com o nosso oásis elétrico. Batemos palmas aos recordes das renováveis e aos preços da luz a 18 cêntimos por quilowatt-hora. É um triunfo inegável. Como estudante de medicina veterinária, sei bem o que isto significa: o leite sai da vaca a 37°C e tem de ser drasticamente arrefecido para os 4°C num tanque de refrigeração; as câmaras frigoríficas dos hipermercados não podem falhar um único grau. Ter eletricidade acessível para manter esta “muralha de frio” e garantir risco sanitário zero é vital.
O problema é que as vacas não comem eletrões. A espinha dorsal da nossa alimentação continua tragicamente amarrada aos combustíveis fósseis.
O setor agroalimentar é um carrossel que, se abrandar, faz disparar a inflação, e se parar, esvazia as prateleiras. E o motor deste carrossel bebe gasóleo. O trator que lavra o Alentejo e o camião que cruza o país de madrugada não andam a energia solar. Pior: o verdadeiro calcanhar de Aquiles não está no depósito, está no adubo. A guerra na Ucrânia já nos tinha dado um banho de realidade quando o bloqueio do Mar Negro fez disparar o preço do milho para as nossas rações. Agora, a crise entra-nos campo
adentro sob a forma de ureia e amoníaco (a base do crescimento das culturas), cuja produção depende umbilicalmente do gás natural.
Em plena época de sementeiras de primavera, os agricultores têm de comprar fatores de produção agora, sem margem para recuos. E é aqui que a ingenuidade europeia esbarra no mapa mundi. Os países mais expostos à instabilidade crónica no Golfo Pérsico representam quase metade das exportações globais de ureia e 30% do amoníaco. Não vale a pena iludirmo nos com tréguas pontuais ou pausas táticas no Médio Oriente; a pressão estrutural sobre o Estreito de Ormuz mantém-se.
Neste exato momento, gigantes agrícolas como a Índia ou o Brasil, cujas rotas logísticas estão reféns deste caos, disputam as alternativas que restam, inflacionando os preços a nível global. Junte-se a isto o egoísmo natural de potências como a China, que trancaram as suas exportações de fertilizantes até agosto para se protegerem e pronto! Temos a tempestade perfeita. O impacto aterra diretamente na manjedoura das nossas vacas. A ração fica mais cara antes sequer de o animal produzir a primeira gota de leite.
Continuar a comprar português é, e será sempre, um imperativo para quem quer apoiar o nosso mundo rural. Mas exige-se honestidade no debate. A inflação que esmaga os portugueses não é apenas uma conspiração de supermercados; é a fatura de um carrossel logístico global que tem uma sede insaciável de gás e petróleo. Da próxima vez que o preço da carne lhe parecer um escândalo, lembre-se: a nossa soberania alimentar é uma ilusão enquanto formos reféns energéticos de autocracias e zonas de guerra. No fundo, queiramos ou não, a geopolítica janta sempre connosco.
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