Quando a guerra revela aquilo que a paz oculta
Existe uma ironia cruel na forma como a guerra ilumina aquilo que a paz tende a esconder. Desde que os combates voltaram a escalar no Médio Oriente, a Europa acordou subitamente para o preço real da dependência energética, com os automobilistas europeus a pagar €150 milhões a mais por dia, o petróleo novamente a ameaçar os 100 dólares por barril, e a Agência Internacional de Energia a libertar reservas de emergência em volumes sem precedentes. Parece uma crise nova. Não é.
Esta é, na verdade, a mesma crise de sempre, apenas com um rosto diferente. A mesma que já se anunciou em 2022 com a invasão russa da Ucrânia. A mesma que o Acordo de Paris, em 2015, tentou transformar num argumento de racionalidade económica, ou seja, a transição energética não como fardo moral, mas como imperativo de soberania. Nós, europeus, esquecemos. Curiosamente, esquecemos sempre que a crise aguda passa e a crónica se instala de forma silenciosa.
A neurociência da urgência
A neurociência há muito demonstrou que o cérebro humano está mal equipado para processar ameaças lentas. Reagimos ao que sangra, ao que explode, ao que chega aos ecrãs. A crise climática, porém, é uma ameaça de lenta acumulação, como uma dívida que cresce silenciosamente durante décadas até que, num único dia, o banco bate à porta. Nesse........
