Irão: destruir o que não se compreende
Há uma região do mundo que, neste preciso momento, arde. As imagens chegam-nos pelo ecrã, fragmentadas, reduzidas a manchetes e análises geopolíticas que raramente ultrapassam a dimensão do petróleo e das alianças militares. Os mercados reagem. O barril do crude sobe e espelha-se nos custos dos combustíveis. E nós, consumidores indiferentes à catástrofe, absorvemos o espetáculo, quase com a mesma passividade com que mudamos de canal. Ninguém, ou quase ninguém, se detém para fazer a pergunta que importa: que terra é esta, o que é que existia nela, antes de se ter tornado naquilo que hoje bombardeamos?
Aquilo que hoje se apresenta como teocracia, como ameaça nuclear, como problema a resolver pela força, foi, durante mais de mil e duzentos anos, uma das civilizações mais tolerantes e mais intelectualmente fecundas que a humanidade alguma vez produziu. E no centro dessa civilização estava uma ideia religiosa tão profunda que moldou, sem que a maioria dos ocidentais o saiba, quase tudo aquilo em que o Ocidente diz acreditar.
O homem que inventou a escolha moral
Algures no planalto iraniano, num tempo que os historiadores situam entre o segundo e o primeiro milénio antes de Cristo, viveu um sacerdote chamado Zaratustra. Olhou para o politeísmo do seu tempo, para os rituais de sacrifício, para o culto dos daêvas, e disse: não. Há um Deus supremo, Ahura Mazda, o Senhor da Sabedoria, e diante dele, a existência organiza-se segundo um princípio simultaneamente cósmico e pessoal: Asha, a verdade, a ordem justa do universo, oposta a Druj, a mentira e a desordem. Cada ser humano é chamado a escolher entre um e outro. Não por imposição, mas por exercício de liberdade. Bons pensamentos, humata. Boas palavras, hukhta. Boas acções, huvarshta. Não era um catecismo. Era uma ontologia.
O que Zaratustra........
