São Valentim, o santo que Roma matou e Portugal desencoraja
Hoje é Dia de São Valentim. Um dia dedicado ao amor, às flores compradas à última hora e à antiga tradição humana de fingir que o futuro é uma certeza logística.
A maioria das pessoas aceita a data com naturalidade. Parece inevitável. Como o Natal ou os impostos. Mas a sua origem é menos confortável do que os jantares sugerem.
No século III, durante o reinado do imperador romano Cláudio II, um sacerdote cristão chamado Valentim foi preso e executado em Roma, provavelmente por volta do ano 270. Não sabemos todos os detalhes com precisão absoluta, o que é normal. Os impérios registam as batalhas com rigor. São menos cuidadosos com os motivos humanos.
Sabemos, no entanto, o essencial. Roma vivia numa crise militar permanente. Precisava de soldados. Precisava de homens disponíveis, móveis e utilizáveis. O casamento criava um problema estrutural. Um homem com família tem vínculos. Tem responsabilidades. Tem razões para sobreviver que não coincidem necessariamente com as razões do Estado.
Segundo a tradição que sobreviveu, Valentim celebrava casamentos cristãos nesse contexto. Não organizava revoltas. Não desafiava o imperador em público. Fazia algo mais silencioso e mais perigoso. Permitia que duas pessoas prometessem um futuro juntas, num sistema que precisava que os homens pertencessem apenas ao presente.
Foi preso. Foi executado.
Roma acreditou que tinha resolvido o problema.
O império que o matou desapareceu. As suas legiões desapareceram. A sua autoridade dissolveu-se na história. Valentim, pelo contrário, sobreviveu. Não como figura política, mas como símbolo de algo mais persistente do que o poder. A ideia de que a continuidade humana depende de decisões privadas que nenhum império consegue fabricar.
Séculos depois, na Europa medieval, o seu nome passou a ser associado ao amor romântico. As pessoas começaram a escrever cartas. Começaram a marcar o dia. Não por obrigação, mas por necessidade. O gesto sobreviveu. O império não.
É aqui que a história deixa de ser romana e passa a ser portuguesa.
Hoje, em Portugal, ninguém proíbe o casamento. Ninguém proíbe os filhos. O mecanismo é mais sofisticado.
Um jovem estuda durante anos, qualifica-se, faz tudo o que lhe disseram que devia fazer. Entra no mercado de trabalho e descobre que o salário não permite sair de casa dos pais. Mesmo trabalhando. Mesmo contribuindo. Mesmo sendo exatamente o tipo de pessoa que o país disse precisar.
Quando finalmente consegue autonomia, descobre que a habitação é instável. Comprar é impossível. Arrendar é temporário. O futuro não pode ser construído sobre contratos que terminam, rendas que sobem e equilíbrios que desaparecem sem aviso.
E perante isto, acontece algo profundamente racional.
Não por falta de amor. Mas por falta de condições.
Não se constrói família quando o presente é incerto. Não se cria futuro quando o futuro depende de estabilidade que não existe.
Entretanto, o país continua a funcionar. Precisa de trabalhadores. Precisa de atividade. Precisa de continuidade imediata. E encontra-a. Mas muitas vezes não a partir dos seus próprios jovens qualificados, que emigram, adiam ou desistem, mas a partir de quem ainda acredita que aqui é possível começar.
Roma também funcionava. Funcionava extraordinariamente bem. Tinha estradas, tinha exércitos e tinha uma confiança absoluta na sua própria permanência.
Faltava-lhe apenas uma coisa.
Pessoas que acreditassem que o futuro lhes pertencia.
Foi por isso que Valentim morreu.
E é por isso que o seu gesto sobreviveu.
Porque o amor não desaparece quando é desencorajado.
Mas deixa de produzir futuro quando deixa de ser possível.
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