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Dia do Bombeiro: de D. João I ao incêndio do Chiado

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Há sonhos que só se tornam interessantes muitos anos depois.

Fernão Lopes conta um deles na Crónica de D. Pedro. O rei teria sonhado que via “todo Portugal arder em fogo”. Diante daquele reino transformado numa enorme fogueira, surgia um dos seus filhos, João, com uma vara na mão, e apagava o incêndio. Esse filho era o futuro D. João I. O cronista conhecia, naturalmente, o desfecho da história quando escreveu a cena, e não precisamos de transformar literatura medieval em profecia. Mas há coincidências que parecem ter sido deixadas à espera de alguém que as encontre.

D. João acabaria por apagar, à sua maneira, um fogo bem mais perigoso do que o de uma casa. Sobreviveu à crise de 1383-1385, venceu em Aljubarrota, fundou uma dinastia e tornou-se o rei a quem Fernão Lopes haveria de reservar um lugar central na memória portuguesa.

Dez anos depois de Aljubarrota, porém, encontramos esse mesmo rei diante de um fogo muito menos metafórico.

Era 25 de agosto de 1395.

A Câmara de Lisboa levara ao rei um problema tão antigo como a própria cidade: os incêndios. D. João I aprovou as medidas propostas pelo concelho para prevenir o fogo e organizar a resposta quando ele surgisse. A própria Assembleia Municipal de Lisboa faz remontar a esse dia a origem remota do atual Regimento de Sapadores Bombeiros.

O documento é extraordinário precisamente porque não contém nada de extraordinário.

Não há carros vermelhos, mangueiras, capacetes, sirenes ou quartéis. Há uma cidade medieval tentando responder a uma pergunta que continua a ser feita seis séculos depois: quando houver fogo, quem vai?

Os pregoeiros deveriam percorrer a cidade recordando aos moradores que vigiassem o fogo nas suas casas. Se o incêndio começasse, carpinteiros e calafates deveriam acudir com os seus machados. As mulheres que fossem ao local levariam cântaros ou potes para transportar água. E como a desgraça também atraía quem aproveitava a confusão para roubar, cem corretores armados deveriam proteger os bens e manter a ordem.

Há qualquer coisa de profundamente moderna escondida neste documento medieval.

Os carpinteiros e calafates não estavam ali por acaso. Eram alguns dos técnicos daquele mundo. Conheciam madeira, estruturas e ferramentas; sabiam cortar, abrir, desmontar e derrubar. Quando uma cobertura ou uma parede ameaçava propagar o incêndio, não bastava juntar braços. Era preciso juntar os braços certos.

A resposta continuava a pertencer à comunidade, mas já não era indiferenciada. Uns........

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