Trabalhar para continuar pobre: o mito da poupança
Toda a gente concorda: os portugueses não estão preparados para a reforma. O novo Barómetro “Preparação da Reforma”, da Católica-Lisbon em parceria com o Doutor Finanças, é devastador nos números. 54% antecipa dificuldades financeiras sérias quando se reformar. 73% não sabe quanto precisa de poupar. 31% não poupa absolutamente nada.
A narrativa que se segue a estes dados é quase sempre a mesma: falta de literacia financeira, falta de disciplina, falta de planeamento. A solução proposta? Mais educação financeira. Mais PPRs. Mais simuladores online.
Mas há uma pergunta que raramente se faz em voz alta. E se o problema não for que os portugueses não querem poupar, mas sim que não podem?
Quando se fala de salários em Portugal, o número que aparece nos títulos é sempre o mesmo: 1.694 euros brutos mensais em 2025, segundo o INE. Soa razoável. Soa até otimista.
O salário mediano, aquele que representa o trabalhador do meio, nem o mais pobre nem o mais rico, situa-se entre 1.000 e 1.050 euros brutos. Ou seja, metade dos trabalhadores portugueses ganha menos de 1.050 euros brutos por mês. Depois de descontos para a Segurança Social e IRS, estamos a falar de um valor líquido que, para muitos, não ultrapassa os 870 a 950 euros.
A diferença entre a média e a mediana não é um detalhe técnico. É a história da desigualdade. A média é puxada para cima pelos salários mais altos, os quadros de gestão, os setores energéticos com 3.476 euros mensais, os serviços financeiros com quase 3.000 euros. Quando o governo anuncia que “os salários subiram 5,6%”, está a falar de uma realidade que não é a de metade do país.
Em 2024, 9,2% dos trabalhadores portugueses estavam em risco de pobreza, segundo o Eurostat. Portugal ocupa o nono lugar entre os países da União Europeia neste indicador vergonhoso, acima da média europeia de 8,2%, atrás apenas de países como a Bulgária, Espanha e Roménia.
Isto não são desempregados. Não são pessoas a viver de apoios sociais. São pessoas com contrato de trabalho, que saem de casa de manhã, que contribuem para a Segurança Social, que um dia esperarão receber uma pensão dessa mesma Segurança Social. E mesmo assim, vivem abaixo do limiar da pobreza.
O número concreto é ainda mais brutal: pelo menos 900 mil trabalhadores portugueses........
