O Dinheiro do Estado É Nosso
Existe uma ilusão confortável que atravessa décadas de discurso político, a ilusão de que o Estado é uma entidade generosa, capaz de investir, subsidiar, apoiar e distribuir riqueza como se dispusesse de recursos próprios, nascidos do nada ou gerados pela simples virtude de governar. Esta ilusão é politicamente conveniente, mas economicamente desonesta.
A verdade é mais simples e mais exigente. O Estado não tem um único euro que não lhe tenha sido entregue, voluntária ou coercivamente, pelos cidadãos que trabalham, produzem e poupam. Quando um governo anuncia que “vai investir mil milhões em habitação” ou que “subsidiou o setor agrícola com duzentos milhões”, está a fazer uma afirmação que omite a parte essencial da frase. Vai fazê-lo com dinheiro que primeiro “retirou” de quem trabalha.
Esta não é uma posição ideológica de direita ou de esquerda. É uma questão de honestidade aritmética.
Luís XIV de França, o Rei Sol, terá dito a famosa frase “L’État, c’est moi” — “O Estado sou eu.” A frase foi dita no contexto do absolutismo monárquico, onde o soberano e o Estado se confundiam numa só pessoa. Mas há uma leitura moderna desta afirmação que a inverte completamente e a torna subversiva em relação ao poder. Numa democracia, o Estado somos nós, todos os cidadãos, contribuintes, trabalhadores.
Se o Estado somos nós, então o dinheiro do Estado também é nosso. Não no sentido de que cada cidadão pode dispor dele à sua vontade, mas no sentido de que cada euro gasto pelo governo saiu do esforço, do suor e do tempo de pessoas reais. De famílias que pagam IRS. De empresas que pagam IRC. De consumidores que pagam IVA em cada compra. De trabalhadores cujos salários são amputados antes mesmo de chegarem à conta bancária.
Esta perspetiva muda radicalmente a forma como devemos avaliar as decisões políticas.
Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica entre 1979 e 1990, foi uma das vozes políticas mais diretas do século XX sobre esta questão. Numa das suas afirmações mais citadas, disse com a clareza que a caracterizava:
“There is no such thing as public money, there is only taxpayers’ money.”, disse Margaret Thatcher num discurso ao Partido Conservador em 1983
A frase é cirúrgica. “Dinheiro público” é uma abstração conveniente que permite ao governante........
