O que (ainda) separa a Esquerda da Direita?
A pergunta sobre o que distingue a esquerda da direita é uma questão clássica, quase tão velha como a própria política moderna — e, no entanto, nunca como hoje ela se impôs com tanta urgência.
Nos últimos anos, um certo desconforto tem acompanhado o uso destas palavras. Usamo-las, claro, porque não temos outras melhores. Mas usamo-las com a sensação de que designam realidades fugidias, cambiantes, talvez já sem correspondência efectiva no mundo que nos rodeia. Esta sensação não é nova. A contestação da dicotomia esquerda-direita remonta às suas próprias origens. Mas ganhou, nas décadas recentes, uma intensidade e uma difusão que merecem reflexão. E ganhou-a, surpreendentemente, num momento em que as palavras “esquerda” e “direita” nunca estiveram tão presentes no debate público.
Comecemos por uma constatação simples. Se olharmos para a comunicação social, para as conversas do dia-a-dia, as palavras “esquerda” e “direita” continuam omnipresentes. Fala-se constantemente da “deriva da direita” na Hungria, da “crise da esquerda” em França ou do “refluxo da direita” em Portugal. Os próprios partidos organizam-se em famílias políticas europeias que se definem por estas coordenadas: o Partido Popular Europeu é de direita, o Partido Socialista Europeu é de esquerda, e por aí adiante. No entanto, ao mesmo tempo, nunca se contestou tanto a validade desta distinção. Ouvimos dizer, com uma frequência cada vez maior, que “esquerda e direita já não significam nada”, que “essa divisão é uma coisa do século XX”, “uma relíquia da Guerra Fria”, etc.
Ora, é precisamente esta tensão — entre a persistência do uso e a contestação da validade — que me proponho explorar no que se segue.
A Origem Histórica: Como Nasceu a Distinção entre Esquerda e Direita?
Comecemos por uma questão prévia. Muito antes de existir política no sentido moderno, as palavras “esquerda” e “direita” já estavam carregadas de significado; não eram termos neutros. Em praticamente todas as culturas, a direita foi associada ao positivo e a esquerda ao negativo.
Porque é que isto aconteceu? Provavelmente por razões muito concretas, ligadas à biologia e à psicologia humanas. A maioria das pessoas é destra. A mão direita é a mão hábil, a que executa as tarefas mais complexas, a que cumprimenta, a que abençoa. A mão esquerda, sendo a mais fraca, foi associada a tarefas consideradas menos nobres ou mesmo impuras. Esta associação projectou-se em todas as dimensões da vida simbólica.
Assim, em inúmeros contextos culturais, a direita tornou-se sinónimo de limpeza, de masculinidade, de bem, de luz, de superioridade. A esquerda, pelo contrário, ficou associada à sujidade, ao feminino, ao mal, às trevas, à inferioridade.
Vejam-se alguns exemplos. No budismo, o caminho para o paraíso é bifurcado, mas apenas o lado direito conduz ao Nirvana. No cristianismo, Cristo está sentado à direita do Pai. Na Última Ceia, o discípulo amado, João, está à direita de Jesus. Na iconografia medieval, os eleitos estão à direita de Deus, os condenados à esquerda. O próprio termo “sinistro”, em português, vem do latim “sinister”, que significa esquerda — mas também ameaçador, funesto, maligno.
As línguas modernas conservaram estas marcas. Em inglês, “right” significa simultaneamente “certo” — e “o que sobra”, o que é deixado, diz-se “left”. Em francês, “gauche” é esquerda, mas também desajeitado, canhestro. Em italiano, “destra” é a mão direita, mas também a capacidade, a destreza — enquanto “sinistra” (esquerda) evoca o sinistro ou o ameaçador.
Portanto, quando a política moderna foi buscar estas palavras para designar campos opostos, não partiu do zero. Apropriou-se de um imaginário milenar que já atribuía à direita e à esquerda conotações profundamente diferentes.
O Antigo Regime: quando a política se organizava na vertical
No entanto, é importante não exagerar esta continuidade. Durante séculos, a organização política não se fazia em torno do eixo horizontal esquerda/direita, mas sim de eixos verticais: alto/baixo, perto/longe. Pense-se nas cerimónias políticas do Antigo Regime. Nessas cerimónias, o rei estava ao centro, num trono elevado. À sua volta, distribuíam-se os diversos grupos sociais de acordo com a sua proximidade ao soberano e a sua posição hierárquica. Os mais próximos — como a família real ou os altos dignitários — estavam literalmente mais perto e mais acima. Os grupos intermédios estavam distantes e mais abaixo. Já o povo, na base da pirâmide, estava à maior distância possível. Ou seja, o que contava era a verticalidade: estar acima ou abaixo, mais perto ou mais longe do centro do poder. A disposição horizontal — direita ou esquerda — era secundária, embora não fosse neutra, como vimos. Mas o fundamental era a hierarquia, a ordem natural das coisas, que colocava uns acima e outros abaixo.
Esta lógica vertical manifestava-se claramente na forma como se organizavam as assembleias políticas. Nos Estados Gerais franceses, convocados em 1789 por Luís XVI para tentar resolver a grave crise financeira do reino, a disposição dos lugares obedecia ainda a este princípio. O clero, a nobreza e o Terceiro Estado estavam separados, mas a sua posição relativa ao rei — a distância a que se encontravam do trono — era mais significativa do que a sua posição à direita ou à esquerda.
O que se passou então em 1789 foi uma verdadeira revolução espacial, com grandes implicações políticas. O Terceiro Estado, insatisfeito com o sistema de votação por ordem que lhe era desfavorável, proclamou-se Assembleia Nacional, afirmando representar a soberania da nação (no que foi acompanhado por membros do baixo clero e por alguns aristocratas liberais).
Ora, quando a Assembleia Nacional se reuniu, os lugares deixaram de ser determinados pela hierarquia. Os deputados sentaram-se onde quiseram, ou melhor, onde lhes pareceu mais útil para conversar e deliberar com os seus aliados naturais. E, de forma espontânea, aqueles que eram mais favoráveis à mudança radical, ao fim do Antigo Regime, à limitação dos poderes do rei, tenderam a agrupar-se à esquerda da assembleia. Já aqueles que defendiam a manutenção das tradições, os privilégios da Igreja e da nobreza, o poder real forte, tenderam a concentrar-se à direita. E note-se que ninguém decretou essa disposição; tratou-se dum fenómeno espontâneo.
Assim, pela primeira vez, a oposição política fundamental deixava de se exprimir na vertical — acima/abaixo, perto/longe — e passava a exprimir-se na horizontal: esquerda/direita. O espaço político tinha sido literalmente aplanado, democratizado. Todos os deputados estavam agora no mesmo plano. A sua posição relativa ao rei deixara de contar. O que passou a contar foi a sua posição relativa uns aos outros — e essa posição media-se, literalmente, em termos de esquerda e direita.
A consolidação da dicotomia no século XIX
Este momento fundador de 1789 não criou imediatamente a dicotomia tal como a conhecemos hoje. Foram precisas décadas de evolução política, de lutas e de debates, para que os conceitos de esquerda e direita adquirissem o conteúdo substantivo que ainda hoje lhes associamos.
Durante a Revolução Francesa, as posições políticas eram voláteis, as alianças mudavam rapidamente, e os próprios termos “esquerda” e “direita” designavam grupos que se transformavam ao sabor dos acontecimentos. Foi sobretudo no período da Restauração, a partir de 1815, que a dicotomia se consolidou. Depois da queda de Napoleão, com o regresso dos Bourbon ao trono, a França dividiu-se entre os que queriam regressar ao Antigo Regime — os ultra-realistas, que se sentavam à direita — e os que queriam preservar as conquistas da Revolução — os liberais, que se sentavam à esquerda. A partir daí, a dicotomia difundiu-se por toda a Europa e pelas Américas. Em cada país, assumiu cores locais, mas manteve uma estrutura comum: a esquerda passou a designar, de forma geral, os partidários da mudança, da inovação, da extensão dos direitos, da soberania popular; a direita, pelo contrário, passou a designar os defensores da ordem estabelecida, da tradição, da hierarquia natural, da autoridade.
Claro que esta oposição é demasiado simples. Como veremos, houve sempre múltiplas esquerdas e múltiplas direitas. Mas o essencial, para já, é retermos este ponto: a distinção entre esquerda e direita é um produto histórico, indissociável da experiência da Revolução Francesa e da emergência da política democrática moderna. Sem democracia representativa, sem assembleias eleitas, sem pluralismo político, simplesmente não faria sentido falar de esquerda e direita. A dicotomia é, por assim dizer, a forma espacial que o conflito político democrático adquiriu.
Porque persiste a dicotomia?
Feito este percurso histórico, coloca-se uma questão: mais de dois séculos passados sobre a Revolução Francesa, porque é que continuamos a usar estas palavras? Terão ainda algum conteúdo substantivo, ou são apenas rótulos vazios que a inércia da linguagem política nos leva a repetir?
Norberto Bobbio, um dos mais importantes filósofos políticos do século XX, dedicou-se precisamente a esta questão num pequeno livro que se tornou um clássico: “Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política”. Publicado originalmente em 1994, no rescaldo da queda do Muro de Berlim e da crise das ideologias tradicionais, este livro teve o mérito de enfrentar de frente o cepticismo então dominante.
Bobbio parte de uma constatação empírica: apesar de todas as contestações, as palavras “esquerda” e “direita” continuam a ser usadas profusamente. Os políticos autointitulam-se de esquerda ou de direita. Os analistas políticos classificam os partidos segundo este eixo. Os cidadãos comuns, quando inquiridos em sondagens, não têm dificuldade em situar-se numa escala que vai da extrema-esquerda à extrema-direita, passando pelo centro. Portanto, do ponto de vista descritivo, a dicotomia é um facto.
Mas será que este uso generalizado corresponde a algo real? Ou será apenas um hábito linguístico sem fundamento objectivo? Bobbio responde que a persistência da dicotomia não é acidental. Ela exprime, a seu ver, uma característica estrutural da política moderna: o facto de ela ser essencialmente conflitual, de se organizar em torno de oposições. A política, diz Bobbio, pensa-se por díades — pares de opostos que estruturam o campo do possível. Em todos os domínios do saber encontramos este tipo de oposições: em sociologia, comunidade e sociedade; em economia, mercado e planificação; em direito, público e privado; em estética, clássico e romântico; em filosofia, transcendência e imanência. Na política, a díade fundamental é precisamente esquerda-direita.
Isto não significa, evidentemente, que não existam posições intermédias. O centro, em política, é uma realidade inegável. Mas o centro só existe em relação aos extremos. Sem esquerda e direita, não haveria centro. Portanto, para Bobbio, a estrutura da política democrática é necessariamente bipolar, mesmo quando admite múltiplas gradações.
O critério fundamental: a atitude perante a igualdade
Posto isto, qual é o critério que distingue fundamentalmente a esquerda da direita? Bobbio examina várias hipóteses e acaba por propor um critério que considera o mais robusto e o mais resistente à erosão do tempo: a diferente atitude perante o ideal da igualdade.
Atenção: Bobbio não diz que a esquerda defende a igualdade absoluta e a direita defende a desigualdade absoluta. Isso seria um absurdo, uma caricatura. Ninguém, no seu juízo perfeito, pode sustentar que todos os homens são iguais em tudo. As diferenças individuais são um dado da experiência. E ninguém pode sustentar, razoavelmente, que todas as desigualdades são justificáveis — mesmo o mais radical dos defensores da desigualdade admitirá que há aspectos em que os seres humanos devem ser tratados como iguais, por exemplo perante a lei.
A questão, para Bobbio, é uma questão de ênfase, de prioridade, de sensibilidade. Partindo da constatação de que os seres humanos são simultaneamente iguais em alguns aspectos e desiguais noutros, a esquerda tende a dar maior importância àquilo que os torna iguais, enquanto a direita tende a dar maior importância àquilo que os torna desiguais.
Isto traduz-se em três dimensões concretas:
Primeiro, a esquerda tende a ser mais igualitária quanto aos aspectos em que a igualdade deve ser promovida. Por exemplo, no acesso à saúde, a esquerda defenderá mais firmemente a universalidade e a gratuitidade, enquanto a direita estará mais disposta a aceitar que o acesso dependa da capacidade de pagamento. Não que a direita seja contra a saúde para todos — mas, confrontada com a escolha entre igualdade e outros valores (como a liberdade de escolha, a eficiência, a responsabilidade individual), tenderá a dar menos peso à igualdade.
Segundo, a esquerda defende, por princípio, que as políticas igualitárias devem chegar ao maior número possível de pessoas. Quando se trata de alargar o sufrágio, por exemplo, a esquerda é mais favorável à inclusão de novos grupos — primeiro os homens sem propriedade, depois as mulheres, depois os imigrantes — enquanto a direita tende a ser mais cautelosa, mais restritiva. A esquerda quer alargar o círculo da igualdade; a direita quer preservar a integridade do círculo existente.
Terceiro, a esquerda tende a ser mais igualitária quanto aos critérios que utiliza para justificar a igualdade. O princípio “a cada um segundo as suas necessidades” é mais igualitário do que o princípio “a cada um segundo o seu mérito”. Isto não significa que a esquerda nunca recorra ao mérito, ou que a direita nunca recorra à necessidade. Mas, em caso de conflito, a esquerda tenderá a dar prioridade à necessidade, enquanto a direita tenderá a dar prioridade ao mérito.
A diferença entre desigualdades naturais e sociais
Bobbio acrescenta um outro elemento a esta análise: a diferente valoração das desigualdades naturais e das desigualdades sociais.
A esquerda, diz Bobbio, parte da convicção de que a maior parte das desigualdades que nos indignam — a pobreza, a exclusão, a discriminação — são de origem social, produzidas por mecanismos económicos, por estruturas de poder, por heranças históricas injustas. E, enquanto tais, são elimináveis. Podemos, através da acção política, da intervenção do Estado, da redistribuição, reduzir essas desigualdades ou mesmo suprimi-las.
A direita, pelo contrário, considera que a maior parte das desigualdades são de origem natural. Resultam de diferenças inatas de talento, de inteligência, de carácter, de capacidade de esforço, e, nessa medida, são inelimináveis. Portanto, qualquer tentativa de as suprimir será vã, ou até contraproducente — porque violenta a natureza das coisas e acaba por criar novas desigualdades.
Bobbio ilustra este contraste através de dois autores paradigmáticos: Rousseau e Nietzsche.
Para Rousseau, os homens nasceram iguais. A desigualdade é uma invenção da sociedade — resultado da propriedade privada, da divisão do trabalho, da competição. O estado de natureza era um estado de igualdade e de liberdade que foi corrompido pela sociedade. Portanto, a tarefa política é, na medida do possível, restaurar a igualdade perdida, criando instituições que neutralizem os efeitos perversos da vida social.
Para Nietzsche, passa-se exactamente o oposto. Os homens nasceram desiguais. A natureza produz indivíduos superiores e indivíduos inferiores, senhores e escravos, fortes e fracos. E isso é bom — é a condição de possibilidade da grandeza, da criatividade, da cultura. O que a sociedade faz, com a sua moral do rebanho, com a sua religião da compaixão, é precisamente artificializar a igualdade, nivelar por baixo, impedir a afirmação dos espíritos superiores. Assim sendo, a tarefa política — ou melhor, a tarefa do espírito — é libertar-se dessa moral igualitária e afirmar a hierarquia natural.
Onde Rousseau vê desigualdades artificiais a eliminar, Nietzsche vê igualdades artificiais a denunciar. Onde um defende a igualdade natural contra a desigualdade social, o outro defende a desigualdade natural contra a igualdade social.
Ora, esta oposição entre Rousseau e Nietzsche não é apenas uma curiosidade histórica. Ela exprime, na verdade, duas atitudes fundamentais perante o mundo social, duas sensibilidades que continuam a estruturar o debate político. Quando um político de direita diz que “não se pode dar tudo a todos”, que “a sociedade não é uma máquina de distribuir riqueza”, que “há que aceitar as diferenças de talento e de mérito”, ele está, conscientemente ou não, a fazer-se eco de Nietzsche. Quando um político de esquerda diz que “a pobreza não é natural, mas sim uma escolha política”, que “as desigualdades são construídas e podem ser desconstruídas”, alinha com Rousseau.
Desafios Contemporâneos à Dicotomia
Chegados aqui, seria tentador concluir que a distinção entre esquerda e direita está bem fundamentada, e que podemos continuar a usá-la com toda a tranquilidade. Mas as coisas não são assim tão simples. Como vimos no início, a contestação da dicotomia é quase tão antiga como a própria dicotomia. E tem-se intensificado nas últimas décadas, por razões que importa analisar.
Bobbio, no seu livro, elenca várias razões invocadas pelos que declaram a distinção ultrapassada. Vale a pena recuperá-las.
Primeiro, a chamada “crise das ideologias”. Com o fim da Guerra Fria e consequente colapso do comunismo real, muitos anunciaram o fim das grandes narrativas políticas. Esquerda e direita seriam expressões dessas narrativas, e teriam perdido o sentido num mundo pós-ideológico, onde todos seriam, no fundo, democratas e liberais. Bobbio responde a esta objecção com ironia: a árvore das ideologias está sempre verde. As ideologias não desapareceram, transformaram-se. O que temos hoje é um novo pluralismo ideológico, com novas clivagens — mas isso não invalida a persistência da oposição fundamental.
Segundo, a crescente complexidade das sociedades democráticas. Num mundo com múltiplos partidos, múltiplos grupos de interesse, múltiplas opiniões, a visão bipolar pareceria redutora. Como é que se pode reduzir a duas posições a imensa variedade de orientações políticas? Bobbio concede que esta objecção tem algum peso, mas recorda que a distinção não exclui o centro. Entre a esquerda extrema e a direita extrema, há todo um espectro de posições intermédias, que podem ser classificadas como centro-esquerda, centro, centro-direita. Mas a existência de múltiplas posições não invalida a existência de uma linha que as ordena.
Terceiro, o surgimento de novos movimentos políticos que parecem não se enquadrar no esquema tradicional. Bobbio dá o exemplo dos Verdes, que na década de 1990 eram um fenómeno novo. Seriam de esquerda ou de direita? Sendo certo que defendiam causas ambientais, também tinham posições económicas variadas. Hoje, poderíamos dar outros exemplos: os movimentos feministas, os movimentos antiglobalização, os movimentos identitários. Todos eles parecem, à primeira vista, desafiar a grelha tradicional.
Há, porém, críticas mais radicais, que não se limitam a apontar dificuldades empíricas, questionando a própria validade do esquema. Estas críticas merecem atenção, porque tocam em aspectos fundamentais da realidade política contemporânea.
Uma primeira crítica, de carácter epistemológico, interroga-se sobre o estatuto da dicotomia: será ela um esquema conceptual que capta a realidade política, ou será apenas uma construção teórica que impomos à realidade, de forma mais ou menos arbitrária?
Bobbio, como vimos, defende que a dicotomia capta uma estrutura ontológica da política moderna — ou seja, que a própria realidade política moderna está organizada desta forma. Mas para que esta tese seja verdadeira, é necessário que existam na realidade forças políticas que correspondam à diferença conceptual. É preciso que haja, efectivamente, partidos de esquerda e partidos de direita, com programas, práticas e bases sociais distintas.
Ora, é precisamente esta correspondência que muitos críticos contestam, chamando a atenção para a realidade política das últimas décadas. Que diferenças substanciais existem entre os programas dos partidos que se dizem de esquerda e dos que se dizem de direita? Em muitos países, a chamada “esquerda” adoptou políticas neoliberais, privatizações, flexibilização laboral, contenção da despesa pública — exactamente as mesmas políticas que a “direita” defende. A diferença resume-se, quando muito, a pormenores de gestão, a um ritmo ligeiramente diferente na aplicação das mesmas receitas.
Além disso, as bases sociais tradicionais inverteram-se. A esquerda, que historicamente representava as classes populares, os trabalhadores, os excluídos, passou a representar eleitoralmente as classes médias altas, os profissionais liberais, os intelectuais urbanos, os grupos mais escolarizados. A sua linguagem tornou-se elitista, o seu código comunicativo afastou-se das preocupações quotidianas das pessoas comuns. A direita, pelo contrário, passou a recolher votos nas periferias operárias, nos meios rurais, nas classes populares descontentes com a globalização e com a imigração.
Ora, se isto é verdade, então a dicotomia perdeu a sua base social. As pessoas que votam à esquerda já não são aquelas que a esquerda diz representar; as pessoas que votam à direita já não são aquelas que a direita tradicionalmente representava. E os programas políticos, longe de exprimirem interesses de classe distintos, convergem para um mesmo núcleo neoliberal.
Nestas condições, a persistência da dicotomia pode ser simplesmente uma operação ideológica que oculta a verdadeira natureza do poder. Ao continuarmos a falar de esquerda e direita, estaríamos a alimentar a ilusão de que há alternativas reais, quando na verdade há apenas duas faces da mesma moeda — duas elites que se alternam no poder sem nunca questionar o essencial.
Esta crítica tem uma implicação importante: a polarização retórica entre esquerda e direita pode coexistir perfeitamente com uma convergência substancial de políticas. Mais ainda: essa polarização pode ser intrínseca ao sistema, porque canaliza o descontentamento popular para formas inofensivas, fazendo crer que há um conflito real quando na verdade tudo se resolve dentro dos mesmos parâmetros.
Pensemos no que aconteceu na Europa nas últimas décadas. A esquerda social-democrata, que no pós-guerra construíra o Estado social, aceitou progressivamente a agenda neoliberal: desregulação financeira, privatizações, redução da carga fiscal sobre os mais ricos, contenção da despesa social. A direita, naturalmente, fez o mesmo, mas com menos hesitações e mais convicção. O resultado foi uma situação paradoxal: os cidadãos continuavam a votar em partidos que se diziam de esquerda ou de direita, só que as políticas efectivamente implementadas eram, no essencial, as mesmas.
Esta convergência teve duas consequências importantes. Por um lado, esvaziou a participação democrática, por outro, criou um vazio que foi preenchido por novas forças políticas, que se apresentam precisamente como alternativa ao “sistema” e à velha política “de casta”.
É aqui que o fenómeno do populismo se torna relevante para a nossa reflexão. O populismo não é novo — tem uma longa história, que remonta pelo menos ao final do século XIX, com o populismo russo e o populismo americano. Mas a sua vaga recente, que tem varrido a Europa e as Américas, coloca desafios inéditos à grelha tradicional.
O que caracteriza fundamentalmente o populismo? Muitos autores têm tentado defini-lo, sem chegar a um consenso absoluto. Há, contudo, um traço que parece comum a todas as variantes: o populismo estrutura-se em torno de uma oposição vertical, não horizontal. O eixo relevante já não é esquerda/direita, mas sim alto/baixo. De um lado, está o povo, as pessoas comuns, os “de baixo”. Do outro lado, estão as elites, os poderosos, os “de cima” — sejam elas elites económicas, políticas, mediáticas ou intelectuais.
Esta oposição vertical não substitui simplesmente a oposição horizontal; atravessa-a, complica-a, torna-a menos nítida. E é por isso que o populismo é frequentemente visto como algo de monstruoso.
Claro que podemos tentar classificar os populismos segundo a grelha tradicional. Há um populismo de direita, que identifica as elites com a globalização, a imigração, a perda de identidade nacional, e promete defender o povo contra essas ameaças externas. Há um populismo de esquerda, que identifica as elites com o capital financeiro, a exploração económica, a austeridade, e promete defender o povo contra esses poderes. Chantal Mouffe, filósofa política belga e uma das principais teóricas da chamada “democracia radical”, defende esta tese: o futuro da política será um confronto entre um populismo de esquerda e um populismo de direita, numa luta pela hegemonia.
Só que esta classificação, por mais útil que seja, não resolve o problema de fundo. O que está em causa no populismo não é apenas uma variação da velha clivagem, mas uma reconfiguração do próprio espaço político. A emergência do eixo vertical alto/baixo indica que muitas pessoas deixaram de se reconhecer na oposição horizontal esquerda/direita. Para elas, a diferença entre um partido de esquerda e um partido de direita é menos relevante do que a diferença entre “nós” e “eles”, entre o povo e a elite.
Seja como for, o populismo não é o único fenómeno que desafia a dicotomia tradicional. Há outras clivagens emergentes que atravessam o espaço político.
Pensemos na clivagem entre globalização e identidade. De um lado, estão os que beneficiam da abertura das fronteiras, da mobilidade, da integração europeia, da multiculturalidade — geralmente, as classes mais escolarizadas, os profissionais móveis, os habitantes das grandes cidades. Do outro lado, estão os que se sentem ameaçados por essa abertura — os trabalhadores da indústria em declínio, as populações rurais, os que vivem em regiões periféricas, os que vêem a sua cultura e o seu modo de vida ameaçados pela globalização homogeneizadora.
Ora, esta clivagem não coincide perfeitamente com a clivagem esquerda/direita. Há sectores da esquerda que defendem apaixonadamente a abertura, a imigração, a multiculturalidade — e há sectores da direita que fazem o mesmo, por razões económicas. Há sectores da direita que defendem o fechamento, a identidade, a nação — e há sectores da esquerda que, sob certas condições, também o fazem, apelando à defesa dos trabalhadores nacionais contra a concorrência estrangeira. A clivagem globalização/identidade produz alinhamentos transversais, que complicam a velha dicotomia.
Pensemos ainda na clivagem entre ecologia e crescimento. A defesa do ambiente, a luta contra as alterações climáticas, a transição energética — tudo isto cria novas linhas de fractura. Há uma ecologia de esquerda, que associa a protecção ambiental à justiça social e à crítica do capitalismo. Mas há também uma ecologia de direita, que associa a protecção ambiental à defesa do território, à tradição, à identidade local. E há sectores da esquerda que resistem à transição ecológica em nome da defesa do emprego industrial, assim como há sectores da direita que a abraçam como uma nova oportunidade de negócio.
Tudo isto sugere que o espaço político contemporâneo é mais complexo do que a simples linha horizontal que vai da esquerda à direita. Há múltiplas dimensões, múltiplos eixos, múltiplas clivagens que se cruzam e se sobrepõem. E a dificuldade em classificar os novos movimentos — os Verdes, os populistas, os identitários — resulta precisamente dessa complexidade.
Pensar com e contra a Dicotomia
Chegados ao fim deste percurso, que respostas podemos dar à pergunta inicial? Esquerda e direita ainda existem? E, se existem, são expressões de poder ou de ideologia?
Penso que a resposta não pode ser simples nem unívoca. A verdade é que a dicotomia continua a existir, no sentido em que continua a organizar o discurso político, a identidade dos actores e a percepção dos cidadãos. Os estudos empíricos mostram que as pessoas se situam a si mesmas e aos partidos ao longo deste eixo, e que esse posicionamento influencia o seu voto e as suas opiniões políticas. Portanto, do ponto de vista descritivo, a dicotomia é uma realidade inegável.
Mas, do ponto de vista substantivo, a questão é mais complicada. O critério da igualdade, proposto por Bobbio, mantém-se heuristicamente útil: permite-nos distinguir, em abstracto, duas atitudes perante o mundo social. A sua aplicação à realidade concreta tornou-se, no entanto, problemática. Que igualdade? Para quem? Através de que meios? A esquerda que defende os direitos das minorias sexuais mas abandona as periferias operárias à direita populista ainda é de “esquerda” no sentido bobbeano? A direita que conquista votos nas classes populares invocando a defesa dos “verdadeiros cidadãos” contra as elites ainda pode ser vista como “direita” no sentido tradicional?
O que parece estar em causa é uma dupla crise. Por um lado, uma crise de representação: os partidos tradicionais deixaram de representar as bases sociais que historicamente os sustentavam. Por outro lado, uma crise de diferenciação: os programas políticos convergiram para um mesmo núcleo neoliberal, esbatendo as diferenças que justificavam a existência de campos opostos.
Nestas condições, o ressurgimento do populismo, com a sua oposição vertical entre povo e elites, pode ser lido como um sintoma dessa dupla crise. As pessoas voltaram-se para movimentos que se apresentam como externos ao sistema, como alternativa radical à velha política, porque a velha política deixou de lhes oferecer alternativas reais. E a dificuldade em classificar esses movimentos como esquerda ou direita revela precisamente que a grelha tradicional se tornou inadequada para captar a novidade do fenómeno.
Isto significa que devemos abandonar pura e simplesmente a dicotomia? Não creio. Como observa Bobbio, a própria ideia de que “já não há partidos de esquerda” utiliza o esquema e reconhece que ele organiza o campo real — só que este encontra-se vazio de um dos lados. Abandonar a dicotomia seria desistir de pensar o conflito político, seria aceitar a ilusão de um mundo pós-ideológico onde todos estamos de acordo.
Talvez o desafio seja, então, pensar com e contra a dicotomia. Com ela, porque ela continua a estruturar a nossa percepção do espaço político e a fornecer-nos um primeiro nível de orientação. Contra ela, porque precisamos de a complexificar, de a enriquecer com novas dimensões, de a tornar sensível às transformações profundas que atravessam as nossas sociedades.
Isto significa reconhecer que o espaço político é hoje multidimensional. Para além do eixo horizontal esquerda/direita, temos o eixo vertical alto/baixo (elite/povo), o eixo abertura/fechamento (globalização/identidade), o eixo ecologia/crescimento, e certamente outros. A posição de um partido, de um movimento ou de um cidadão não se define por uma única coordenada, mas por um conjunto delas. E é esse cruzamento de coordenadas que produz a complexidade do panorama político actual.
Termino com uma questão: a distinção entre esquerda e direita é hoje uma questão de poder — isto é, uma mera luta por posições, sem conteúdo substantivo? Ou é ainda uma questão de ideologia — isto é, de princípios, de valores, de visões do mundo em conflito?
A minha resposta é: as duas coisas. A persistência da dicotomia como instrumento de mobilização eleitoral, como factor de identidade partidária, como mecanismo de organização do poder, é inegável. Mas essa persistência coexiste com um esvaziamento progressivo do seu conteúdo ideológico, com uma convergência prática que torna cada vez mais difícil distinguir o que separa realmente os dois campos.
Talvez o verdadeiro desafio não seja decidir se a dicotomia ainda existe, mas sim reconstruí-la — dar-lhe um novo conteúdo, uma nova relevância, uma nova capacidade de orientar a acção política num mundo transformado. Isso exige, porém, que reconheçamos as suas insuficiências e que estejamos dispostos a repensá-la à luz das novas clivagens que emergem.
O populismo, a crise ecológica, a globalização, a revolução digital — tudo isto são realidades novas, que a velha dicotomia não estava preparada para enfrentar. Talvez seja através dela, paradoxalmente, que possamos começar a enfrentá-las. Porque, no final de contas, para lá da esquerda e da direita, há o centro — mas o centro não é um lugar, é uma ilusão.
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