A palavra fora do tom
Não desafinei apenas nas notas. Desafinei na língua.
A palavra que, em Gal, atravessava o ar com corpo, risco e claridade, na minha boca saía menor, torta, atrasada, procurando caminho. Tentei uma vez, depois outra, e percebi que havia palavras que eu sabia escrever, mas não sabia cantar. Talvez nem dizer.
Foi aí que pensei: nem toda palavra gosta de sair pela boca. Algumas preferem ficar no papel, com essa compostura de quem ainda não foi chamada para a sala. Escritas, parecem obedientes: têm margem, acento, intervalo, alguma dignidade. Mas basta alguém pedir que eu as diga em voz alta para que se revelem indomáveis. A frase que no caderno parecia ter espinha tropeça; a palavra escolhida com tanto cuidado perde a pose, atravessa a garganta de lado e chega ao mundo com um sapato diferente em cada pé.
Talvez por isso eu desconfie das pessoas muito afinadas. Não das que cantam bem, essas merecem respeito. Falo das que falam sem hesitar, das que têm uma opinião pronta antes mesmo de a pergunta terminar, das que atravessam qualquer conversa com a segurança de quem nunca precisou voltar atrás. Há nelas uma música limpa demais, uma espécie de compasso sem poeira, como se tudo tivesse sido ensaiado diante de um espelho muito satisfeito.
Eu, ao contrário, desafino quando digo o que sinto e a palavra sai menor do que o susto; desafino quando tento ser delicada e pareço........
