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Entre Suez e Ormuz, o momento americano

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31.03.2026

“Hoje, os Estados Unidos arriscam descobrir que o palco já não lhes pertence da mesma maneira, não porque uma superpotência rival os tenha desalojado diretamente, mas porque o próprio mecanismo da hegemonia se tornou mais caro, mais contestado e menos eficaz.”

Anthony Eden tinha pose de estadista, educação de império e a convicção, hoje quase enternecedora, de que a Grã-Bretanha ainda podia agir como se o século XIX não tivesse acabado. Em 1956, quando Gamal Abdel Nasser nacionalizou o Canal de Suez, Eden leu o gesto não apenas como uma afronta egípcia, mas como uma insolência histórica. Havia, no raciocínio de Londres, qualquer coisa de profundamente imperial e ao mesmo tempo profundamente anacrónica: a ideia de que um poder regional não tinha o direito de tocar numa artéria que o velho centro considerava sua por natureza, por hábito e por hierarquia. A operação militar foi preparada, a força foi mobilizada, o teatro da determinação foi montado. E, no entanto, bastou a pressão americana sobre a libra para revelar a verdade que os mapas já escondiam mal: o Reino Unido continuava armado, mas deixara de mandar.

Eden quis comportar-se como Churchill num mundo que já era de Eisenhower. Donald Trump, com o seu narcisismo estratégico e a sua vulgaridade de vendedor transformado em César de resort, corre o risco de fazer qualquer coisa semelhante. Não por semelhança de temperamento, porque Eden era um aristocrata melancólico e Trump um populista histriónico, mas por semelhança de erro. Ambos olham para uma crise internacional como quem acredita que a força, por si só, restitui autoridade. Ambos partem da convicção de que um adversário regional acabará por dobrar quando confrontado com poder esmagador. Ambos confundem capacidade militar com controlo político. E é precisamente aí que os impérios começam a perder a noção da realidade.

A comparação entre Suez e Ormuz pode parecer excessiva à primeira vista. O Reino Unido de 1956 era uma potência em declínio acelerado; os Estados Unidos de 2026 continuam a ser a maior potência militar do planeta. A libra estava........

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