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O último grito

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27.03.2026

Xu Bing é um artista chinês que vive entre Pequim e Nova Iorque. Ele criou uma caligrafia que junta aquela espécie de quadrados chineses e, dentro deles, o alfabeto ocidental. O efeito é notável: mistura (parece misturar) as duas caligrafias, transformando-as numa só: visualmente, o resultado é um texto com caracteres chineses ou — para um olho menos familiarizado, orientais —, mas na verdade a leitura é ocidental, ou seja, da imaginação de Xu Bing resultou o encontro amigável de duas matrizes aparentemente inconciliáveis que se fundem, através das tintas e das palavras, numa só. A ideia desta miscigenação é evidente, não exige muitas explicações: há um mundo inteiro de possibilidades e oportunidades culturais, económicas, sentimentais… — todas as que desejarmos ter — para quem escolhe sair da calha fixa onde nasceu e se abre à diferença que nos rodeia a todos. O Oriente que acolhe o Ocidente e se reinventa numa fusão deliberada; ou vice-versa. Ninguém exclui ninguém.

Em junho de 2025 fui a uma exposição deste artista chinês em Hong Kong, no bairro de Tsim Sha Tsui. Com a marca da passagem britânica ainda bem visível, não haveria melhor cidade para aproveitar este encontro natural entre culturas tão diferentes — os autocarros de dois andares andam pelas avenidas de Kowloon, a zona mais chinesa da antiga colónia britânica, ganha após a Guerra do Ópio, no início do século XIX, como se circulassem por Mayfair; e, sim, hoje estão em casa nos dois sítios. Não houve uma aculturação forçada, deu-se uma integração natural (há autocarros verdes, amarelos…) promovida e sustentada pelas pessoas. A nova caligrafia global de Xu Bing expressa a mesma ideia de harmonia (não-conflito) que está em frontal desacordo com o pequeno e agressivo mundo de Trump que divide, bloqueia, separa para, finalmente, ele próprio se rejeitado como corpo estranho e infetado que está a adoecer o mundo.

Agora, de novo em Pequim, mais de dez anos depois da minha primeira e única visita, a caligrafia deste artista impôs ainda mais a sua poderosa força simbólica. A China, gigante de 1,4 mil milhões de pessoas, com quatro vezes mais gente que a América, embora com sensivelmente a mesma dimensão de território, contribui hoje para a humanidade com previsibilidade, boa diplomacia e boas relações, investimentos oportunos e inteligentes em inovação e muito (muito) desenvolvimento científico e tecnológico com real utilidade industrial. Exporta........

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