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O Batista anunciando o regresso do Messias

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08.03.2026

"Eu batizo-vos na água, mas vem aquele que é mais forte do que eu, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias." (Lc 3,16) - Alguns crentes, pessoas sentenciosas num tempo em que a aparência se sobrepõe à lucidez, poderão acusar-me de blasfémia. Que o façam. Não são detentores da palavra divina, supondo-se que existe divindade para a proferir, nem me impedirão de ver nestes tempos, num país chamado Portugal, o Batista preparando a vinda do Messias.

A frase atrás reproduzida, posta pelo evangelista Lucas na boca de João Batista, era reação aos que, nele reconhecendo santidade, supuseram ser ele o Cristo. Porém, no tempo presente a que aqui adaptamos a sagrada narrativa, o Precursor, como a Igreja Ortodoxa designa o nosso S. João, poderá não estar conformado com esse papel, tornado secundário pela afirmação daquele que lhe sucederá.

Este Precursor desventuroso dispara para todo o lado e de tudo tenta tirar proveito pessoal, estando agora obrigado a um jogo de cintura que lhe permita glorificar o novo Messias, sem que ele próprio deixe de ser também Messias, num invulgar "pas de deux" messiânico. Fê-lo, há dias, ao propor uma bizarria daquelas que lhe passam pela cabeça como pulgas em lombo de cão: uma comissão, no Parlamento, presidida por um não eleito.

Não é fácil a tarefa do Precursor, pois o Anunciado parece ter-se a si mesmo por predestinado, moralizador e disciplinador. Um salvador da pátria mais troikista do que a troika, lembram-se? Depois, importa saber o que querem. Estará o Messias disponível para ser o número dois do Batista? Ou vice-versa? Estará o Messias disposto a ser um de dois? Sabe o Batista qual foi o seu fim bíblico?...

Uma coisa parece certa. A este suposto Messias, que põe aos pulos de excitação muita gente do jornalismo, já não chega ameaçar com o regresso ao leme do partido a que pertence, pois grande parte do que era a sua base de apoio, como bem notou Isaltino Morais (quem diria: um exemplo de lucidez e uma lufada de ar fresco!), transitou para forças ainda mais à direita. É aí que ele tenta colher, indiferente à secura que possa causar na casa onde nasceu como jotinha.

E por aí vai semeando há muito, já sem se mostrar orfeonista bonacheirão. Para a clientela que o adora, amantes de um antigamente que afinal desconhecem, nada como a trágica imagem quaresmal que agora lhe associamos. Nada como aquele ar sofrido de Senhor dos Passos.


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