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Um cruzeiro parlamentar

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24.03.2026

Há episódios que, pela sua pequenez aparente, iluminam com precisão cirúrgica o estado de um partido ou até de um Parlamento. O caso de Eva Cruzeiro é um desses. A deputada socialista foi censurada, na sequência de um inquérito interno da Assembleia da República, por desrespeitar deveres fundamentais ao chamar "racistas e xenófobos" aos deputados do Chega. No meio da discussão acalorada, ocorrida em outubro do ano passado, Filipe Melo, do Chega, atirou "vai para a tua terra". Esclareça-se que a deputada e rapper nasceu em Portugal.

O relatório da comissão de inquérito, aprovado por unanimidade, até pode conter de forma literal ou implícita uma verdade inquestionável: o Parlamento não é uma rede social, e as palavras de um deputado carregam um peso que a indignação, por legítima que seja, não suspende. Isso aplica-se a Eva Cruzeiro e a todo e qualquer eleito.

Seja como for, o que mais surpreende não é o incidente original. É o que se seguiu. O PS votou favoravelmente o relatório que condenava a sua própria deputada - e só depois, ao ler as notícias, percebeu o que havia aprovado. Agora quer revogar o seu voto, invocando o adiantado da hora, mas o PSD diz que este último argumento é falso.

Não é a primeira vez que o PS revela a ausência de uma exigível solenidade nos atos políticos. Em janeiro de 2023, soube-se que o ministro Pedro Nuno Santos tinha autorizado por WhatsApp uma indemnização de 500 mil euros à CEO da TAP e o escândalo não era só o valor. Decisões com aquele peso tinham sido comunicadas através de mensagens por telemóvel.

Há uma linha que une os dois episódios: a leviandade, que segue ao ritmo de cruzeiro. E desengane-se quem pensa que o mal está circunscrito a um ou dois partidos.


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