O Dubai e a ameaça da guerra
Três amigas decidiram viajar até ao Dubai pelo interesse que tinham em conhecer uma cultura e um modo de vida diferentes e, sobretudo, para perceber os encantos secretos que aquela cidade escondia, tais os aplausos que lhe eram feitos por quem conhecia aquelas paragens. Ficaram, também elas, surpreendidas. Não eram as belas paisagens naturais que se impunham. Era o toque das mil e uma noites que perpassava pelas largas e elegantes avenidas, que desenhavam as cidades - Dubai, Abu Dhabi, Doha e Manama. Eram os enormes e luxuosos centros comerciais que inspiravam a extravagância, o desejo incontido de mergulhar nas ofertas apresentadas. A arquitectura ultramoderna, mas elegante, a engenharia e todo um complexo de técnicas ligadas à construção que impressionavam. Sem tratar dos direitos humanos, da liberdade e da democracia que estarão afastadas ainda do desejável, aquelas monarquias do Golfo representam uma opção surpreendentemente aprazível para viajar. Estavam as amigas no Museu do Futuro, no Dubai, a 28/2 passado, quando os respectivos telemóveis transmitiram mensagens inesperadas, dando o alerta de que algo perigoso se passava. Regressadas ao hotel, estupefactas, souberam que os EUA e Israel tinham atacado o Irão. E o que até então fora uma experiência muito agradável transformou-se numa angústia improvável. O regresso estava marcado para o dia seguinte e as notícias, por vezes contraditórias, sucediam-se em catadupa para desembocarem numa certeza drástica. Todos os voos foram cancelados, o espaço aéreo estava encerrado. E o regresso? O ambiente vivido era ainda de certa calma, de um nervosismo contido. Nessa noite, cerca das 2 h, um alarme estridente proveniente dos telemóveis era acompanhado de um alerta escrito para a possibilidade de queda de mísseis provenientes do Irão. Perplexidade, medo, pânico, talvez... As três amigas e muitos outros hóspedes desceram ao lobby do Hotel, onde um seu responsável lhes falou com serenidade e com a paciência de um adulto sossegando as crianças. "Vão deitar-se, não há qualquer perigo." À pergunta sobre onde se localizavam os abrigos, respondeu que não existiam. Estava tudo bem. No dia seguinte, soube-se que um dos mísseis se dirigia ao aeroporto e outro a uma zona residencial, mas interceptados, só os estilhaços provocaram danos. A ansiedade toma conta das três perante a incógnita do regresso. O consulado, a embaixada e o MNE não existiam, não davam a cor de si. Não foi avançado qualquer apoio. Não fora o excelente profissionalismo da Agência de Viagens das três amigas e estas não saberiam como resolver este drama inesperado. Durante três dias o espaço aéreo esteve encerrado, mas logo que provisoriamente foi reaberto a agente incluiu-as no primeiro voo para Portugal. Uma experiência que se mostrava feliz transformou-se de repente, por vontade de um homem só, num pesadelo, ainda que breve para aquelas, naquele contexto, mas que se vem agravando para o Mundo todo.
*A autora escreve segundo a antiga ortografia
