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O futuro é atrás

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10.03.2026

Uma das inegáveis vantagens de assinalar o Dia Internacional da Mulher é a presença mediática das questões de género. Na semana do 8 de março há sempre divulgação de dados estatísticos demonstrativos das desigualdades vigentes, que acabam por funcionar como um reforço da relevância do dia, contra céticos e inimigos da causa. E os números gritam!

Por estes dias, fomos relembrados que entre 2002 e 2025 foram assassinadas 709 mulheres em Portugal e que só no último ano foram 26 as vítimas mortais por violência doméstica (com mais 57 mulheres vítimas de tentativa de homicídio e cerca de 30 mil queixas às autoridades). Vimos que uma em cada três mulheres da EU já foi alvo de violência sexual ou física.

Vimos que só em 2024 duas mil mulheres portuguesas perderam o emprego por ficarem grávidas (apesar de ser ilegal). Vimos também que, apesar de 58% das pessoas licenciadas no país serem mulheres, estas representam apenas 34,8% dos cargos de direção e que continuam a receber menos 15% que os seus pares (o que quer dizer que trabalham cerca de dois meses de graça por ano). E o pior é que, à medida em que subimos na hierarquia e nas qualificações, vemos que esse fosso salarial aumenta para quase 25%.

Vimos que em Portugal a taxa de emprego feminino é uma das mais altas da Europa (inclusive nas mulheres com filhos) e que está taco a taco com a masculina, mas que estas continuam a dedicar quase o dobro das horas vagas ao cuidado doméstico do que os homens (a tal jornada extra no cuidado das crianças, dos idosos e da casa, que as penaliza em termos laborais e de saúde).

Mas se houve estudo altamente divulgado por estes dias, com números deveras preocupantes, foi o estudo global sobre as perspetivas de género da chamada geração Z, especialmente assustador pelo que nos diz sobre o futuro e sobre as dinâmicas de agravamento dos preconceitos que legitimam tanta desigualdade. Pois se as últimas gerações muito lutaram para, na lei e na prática, ir corrigindo as assimetrias, ao que parece, os mais jovens tendem a ser mais retrógrados que os "boomers", notando-se um recrudescimento das velhas crenças patriarcais.

Cerca de um quarto dos jovens entrevistados acreditam que as mulheres não se devem mostrar "demasiado independentes", 33% acham que é o marido que tem a palavra final nas decisões importantes, 59% acham que é esperado demasiado dos homens no apoio à igualdade de género, 21% acham que as mulheres decentes não devem tomar a iniciativa no sexo e 13% afirmam que uma mulher deve obedecer sempre ao marido.

Entre doutrinação Red Pill, pornografia desde tenra idade, adesão aos populismos de extrema-direita, em plena era do ressentimento, em que a IA tende a reificar o viés dos estereótipos de género, estão reunidas as condições para que o futuro seja medieval. Sobretudo porque, por muita luta que tenha sido feita, nunca conseguimos transformar a raiz misógina da nossa cultura, que ensina desde o berço estes rapazes a rejeitar em si as características ditas "femininas" e a tomar como insulto ser comparado a uma mulher.


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