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Diferenças

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Passei uns dias na Galiza para arejar e, de bónus, pus algumas coisas em perspetiva. É que, apesar de ser do Norte de Portugal e ter sempre a sensação que atravessar a fronteira em Valença do Minho é continuar em casa (por tudo o que se reconhece de familiar, na arquitetura das vilas, nas cores das paisagens, na língua e no trato), há algumas coisas que saltam à vista pela diferença e, dessas coisas, na esmagadora maioria das vezes, a diferença vem de escolhas políticas e económicas.

Desde logo, a floresta. Se deste lado da fronteira a monocultura do eucalipto é dominante, tornando a paisagem monótona para quem sobe a A3, na Galiza existe uma profusão de espécies autóctones e, mesmo quando o eucalipto aparece, a sua produção é habitualmente intercalada por carvalhos e faias, numa intermitência que garante biodiversidade, melhor gestão em caso de incêndio e uma preservação considerável das variedades locais.

Depois, pelas enormes filas de portugueses nas bombas de gasolina, somos lembrados que, se antes já era mais barato, neste momento, com a crise energética causada pela guerra no Irão, há uma diferença de quase quarenta cêntimos por litro no gasóleo, dos dois lados da fronteira. Uma discrepância absurda e que, no caso da bilha de gás, é de 50%, fazendo com que os portugueses (que ganham menos) paguem muito mais por encher o depósito e o dobro por uma botija. Escolhas políticas, mais uma vez.

Nas cidades, médias e pequenas, há uma outra diferença que sobressai - a vitalidade comercial das urbes galegas, quando comparadas às localidades com a mesma dimensão em Portugal. É impressionante a quantidade de lojas, restaurantes, esplanadas, cheias de gente local (e não de turistas), muito diversas e não apenas de multinacionais ou grandes cadeias de supermercado. E mesmo fechando ao domingo religiosamente, além de fazerem duas horas de pausa para almoço, estão de boa saúde e recomendam-se, ao passo que cá, para sobreviver, os comerciantes não podem fechar e têm de orientar o seu negócio para os turistas, lutando contra o aumento das rendas e o curto poder de compra dos locais.

Outra diferença mais do que notória é na fatura do supermercado, já que há diversos produtos consideravelmente mais baratos, fazendo com que, mesmo numa simples compra de turista - uns snacks, um protetor solar, umas bebidas e um saco de fruta - se poupe uns trocos valentes, a poucos quilómetros da fronteira.

Ora, se tivéssemos um Governo que se preocupasse com problemas reais, com impacto na nossa vida, como o custo do cabaz de compras, da energia e das rendas, talvez pudéssemos viver mais desafogados, em cidades vivas, em que os pequenos comerciantes pudessem respirar e os locais encher os restaurantes, rodeadas de florestas diversas e não apenas por barris de pólvora que nos matam todos os verões. A cerejinha em cima do bolo seria ter um Governo que se posicionasse contra a guerra e não fosse colaboracionista, mas isso já é sonhar muito alto.


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