A ditadura do algoritmo
Já no ano passado escrevi a respeito. Fui verificar os cartazes como sempre faço e confirma-se: mais um ano de semanas académicas com cartazes esmagadoramente masculinos em todo o país. Só em exceções ultraminoritárias encontramos artistas mulheres. E se pensarmos que a população universitária é mais feminina que outra coisa, é ainda mais perverso que esta desigualdade gritante se mantenha ano após ano. Mentiria se dissesse que me surpreende, já que ano após ano também, os dez artistas portugueses mais ouvidos nas plataformas digitais são homens e a lógica do algoritmo alimenta essa predominância em todas as esferas da indústria, incluindo na programação de festas e festivais pagos com dinheiros públicos (em que a preocupação com a diversidade deveria ser maior).
A prova disso são os prémios da indústria, que tiveram lugar por estes dias, os Play - Prémios da Música Portuguesa, organizados pela Audiogeste, cuja gala foi transmitida pela RTP e em que, no prémio da Canção do Ano, estavam a votos (no total) vinte homens e zero mulheres. Também não surpreende, porque o critério de seleção das canções nomeadas era meramente quantitativo e, portanto, a diversidade, a representatividade, a tentativa de equilibrar o viés que a tal ditadura do algoritmo e a desigualdade de género alimentam ficaram totalmente de fora, para privilegiar os números.
Aliás, não fosse a categoria de Melhor Artista Feminina e, tendo em conta que nestes prémios só as vinte canções, discos e artistas mais ouvidos são considerados para nomeação, praticamente não existiriam mulheres a votos. Tal como praticamente não existem artistas da música alternativa, que não têm relevância numérica para sequer ser considerados para nomeação e só têm hipótese de figurar nos nomeados para Prémio da Crítica (escolhido por uma meia dúzia de opinion makers dos média nacionais) ou, se forem novatos, para Prémio Revelação (cujos critérios de seleção felizmente escapam à lógica simplista dos números).
Este garrote dos vinte mais ouvidos do ano deixa de fora os artistas que mais dificuldades têm em resistir neste mercado minúsculo, como independentes, num tempo em que nem os programadores arriscam criar cartazes pela qualidade musical e tudo favorece quem já tem visibilidade. Mas seriam, certamente, esses artistas quem mais beneficiaria do prestígio de receber um prémio deste género, visto que, para quem já tem os números, os concertos, os seguidores, as parcerias com marcas, o airplay na rádio, os contratos com editoras, este tipo de prémio faz muito pouca diferença (e até por isso é que metade dos vencedores nem se digna a estar presente na premiação).
Podiam pelo menos ter tido mais mulheres nas atuações musicais da gala, visto que entre cerca de vinte artistas homens, apenas três mulheres atuaram. Nem isso!
