Tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo (III)
Neste terceiro e último texto vamos tentar perceber até que ponto a cultura política democrática nos pode salvar deste universo securitário em construção, sabendo nós que estamos cada vez mais próximos de um limiar de rutura na aldeia global em que vivemos. Os regimes de liberdade, igualdade e fraternidade da democracia política liberal estão em risco, cada vez mais instáveis e ingovernáveis devido à radicalização do espetro político-partidário que se deixou contaminar pelos regimes não liberais - autocracias, teocracias e totalitarismos - e que não cumprem a mesma lógica de ação coletiva liberal e institucional. Sabemos que a modernidade segmentou, especializou, profissionalizou, em primeira instância a filosofia, depois o saber e a ciência, mas também sabemos que há limites para essa especialização, que gerou muitas zonas cinzentas, ângulos mortos e externalidades negativas sobre a sociedade e a natureza. Hoje, na aldeia global e perante o risco sistémico iminente, é imperioso reagrupar, recompor as competências, refazer as mediações e promover um regresso aos bens comuns, o terreno de eleição da natureza, da cultura, da ciência e da política.
A transformação tecno-digital da sociedade da informação e do conhecimento, já em plena laboração, se for bastante disruptiva e assimétrica, pode estar na origem de uma gigantesca distopia existencial, se quisermos, um gigantesco processo kafkiano de dimensões hiperbólicas. Como evitar que tal aconteça, esse é o desafio que está à nossa frente e já no meio de nós.
Durante o período urbano-industrial de quase todo o século XX o cidadão era um ente exterior ao Estado-administração e mantinha, por isso, o sentido crítico de uma cidadania atenta e responsável. Com a grande transformação tecno-digital esta relação de exterioridade inverteu-se, desmaterializou-se e assistimos em direto a uma grande imersão do cidadão no grande universo das plataformas e aplicações, onde o cidadão passa a ser não apenas o coprodutor e cogestor de uma parte substancial dos serviços prestados, mas, também, ele próprio, o produto final. Estamos, assim, numa zona cinzenta de partilha de responsabilidades que se presta a inúmeros equívocos e mal-entendidos, pois tudo assenta, agora, em protocolos, processos e procedimentos tecno-digitais e algorítmicos, que estão cheios de vieses informáticos e cognitivos e que agravados pela iliteracia do cidadão comum fazem adivinhar a eclosão de muitas........
