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O real é um mistério e a realidade um assunto interpretativo

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O real é um mistério, uma realidade essencial, praticamente inacessível. Chegamos lá somente através de algumas aproximações, umas mais bem-sucedidas outras nem tanto. A realidade dessas aproximações é um assunto interpretativo que se dissolve cada vez mais à medida que a história adquire uma aceleração absolutamente inusitada. É este o momento que vivemos atualmente. Quanto mais virtualizamos e viralizamos mais desvirtuamos a realidade. Por causa desta aceleração são inúmeros os acidentes fortuitos, os efeitos secundários, os danos colaterais, os ângulos mortos, as descobertas acidentais, os impactos multirrisco. Que ocupam o pouco tempo que nos resta e nos deixam cada vez mais ansiosos. Vejamos, mais de perto, como esta aceleração tecno-digital interfere com a arte da nossa existência.

Em primeiro lugar, a velocidade é, hoje, a nossa imagem de marca e cada velocidade devolve-nos uma grelha de leitura da realidade. O passado e o futuro são, digamos, aspirados para o momento presente e nesse movimento perdemos não apenas o lastro histórico, mas, também, a promessa do futuro que nos garantia, ao menos, a esperança de uma expetativa. Num tempo quase irreal em que vivemos, o presente é, digamos, uma mera circunstância, um epifenómeno na grande seta do tempo e destinado a ser devorado por um vulgar ato de consumo.

Em segundo lugar, a desmaterialização virtual leva-nos, cada vez mais, para ambientes simulados e dissimulados onde somos atores e personagens comprometidos e capturados por uma vertigem representativa e usamos inúmeras máscaras de acordo com as circunstâncias e as conveniências. Nessa cultura de representação e simulação, a cenografia e a coreografia são atividades de composição extenuante que nos deixam próximos da exaustão. Imagine-se, agora, o princípio da realidade a contas com a simulação dos objetos quando estes, por via da internet das coisas (IOT), começarem a "ditar, também, a sua realidade".

Em terceiro lugar, na sociedade do conhecimento as comunidades estão obrigadas a aprender constantemente e, nessa medida, a realidade é um exercício de experimentação feito de aproximações sucessivas. Dito de outro modo, a realidade é um assunto interpretativo e argumentativo. O campo teórico, sobretudo o campo das ciências sociais e humanas, composto de conceitos, categorias, tipologias, metodologias e procedimentos, com origem no iluminismo científico moderno, está cada vez mais ameaçado pelos modelos de linguagem cada vez mais sofisticados da IA, pelo que a academia deve preparar-se para rever o seu convencional estatuto científico se não quiser ser um ator secundário que corre pelo lado de fora da cultura tecnológica e digital.

Em quarto lugar, num mundo cada vez mais de realidade virtual, quando olhamos o que é que vemos? Apetece dizer, quanto mais olhamos menos vemos. Paramos, mas não reparamos, escutamos, mas não ouvimos, olhamos, mas não vemos. Por outro lado, na esfera pública e no plano comunicacional e propagandístico está em crescendo uma guerra aberta entre a imprensa livre, a desinformação das redes sociais, a contrainformação da propaganda política. Estamos metidos em apuros.

Em quinto lugar, na era dos dados e das multidões, onde reina o algoritmo-mestre e a metalinguagem normalizadora, estamos a atualizar para o século XXI o princípio cartesiano da dúvida metódica ou sistemática. A evidência dos dados é uma "arma de destruição matemática" (O´Neal, 2016) e, por essa razão, não devemos confundir a correlação estatística com a explicação racional. Entre a descontextualização da evidência estatística e a plurissignificação da realidade, este é o nosso campo de ação, uma nova dúvida metódica, é aqui que nos encontramos, hoje, em plena era da cultura tecno-digital.

Em sexto lugar, há um paradoxo em plena laboração, a saber, quanto mais incerteza mais liberdade. Através da incerteza alarga-se o campo das possibilidades e logo, também, o campo dos eventos acidentais. Doravante, nas sociedades de risco global e sistémico, estamos obrigados a desenvolver treino específico e capacidades especiais para entender e antecipar como se forjam e desenvolvem as interações fortuitas e, por via delas, as descobertas acidentais. Este é o grande paradoxo da incerteza. Os sinais dessas interações acidentais podem ser de tal modo fortuitas e furtivas que dificilmente caberão no interior das nossas métricas conceptuais e instrumentais habituais.

Em sétimo lugar, na sociedade da informação e da comunicação em que vivemos, a inteligência deixou de estar contida nos limites humanos, biológicos, originais e foi transferida para ecossistemas e ambientes inteligentes que são extensões da nossa própria inteligência. De facto, a inteligência e as faculdades humanas, estão a transitar para fora do seu habitat biológico, o corpo humano, para se instalarem em dispositivos tecnológicos transumanos e pós-humanos cuja configuração futura nem sequer imaginamos. Deste ponto de vista, a realidade não para de aumentar todos os dias, à medida que a inteligência se transfere. Hoje, tudo é smart, desde a realidade virtual e aumentada aos interfaces cérebro-computacionais, desde a inteligência dos objetos até à inteligência artificial e ao deep learning machines.

Em oitavo lugar, a internet, os motores de busca, as plataformas, os computadores e os smartphones, na sua imensa vastidão, mergulham-nos numa espécie de modernidade líquida, para usar a expressão do sociólogo Zigmunt Baumann. De facto, nós mergulhámos num imenso oceano de informação, experimentamos uma vertigem permanente para separar o essencial do acessório e lutamos com imensas dificuldades para administrar a nossa economia da atenção. No final do dia, estamos exaustos e no dia seguinte, ainda debilitados, tudo recomeça de novo. Nesta vertigem o foco da atenção converte-se num turbilhão, talvez, mesmo, em delírio e alucinação.

Em nono lugar, a emergência de um mundo multipolar em formação deixa as instituições multilaterais nascidas no pós-guerra muito vulneráveis e esta turbulência no sistema de relações internacionais desencadeia novos alinhamentos entre Estados e faz crescer o número de regimes populistas, iliberais e autocráticos com consequências diretas na governabilidade do sistema político da União Europeia. Neste contexto, com a guerra da Ucrânia à nossa porta, a relação entre tecnologia e segurança adquire uma relevância primordial, pois já entrámos no tempo das guerras híbridas. E tal como foi necessário redigir um tratado de não-proliferação de armas nucleares, talvez um dia seja necessário escrever, mesmo, um tratado de não-proliferação de armas inteligentes de destruição automática. Basta "apenas" que aconteçam alguns acidentes graves cuja responsabilidade seja atribuída, "afinal", à utilização abusiva de sistemas de inteligência autónomos e automáticos.

Por último, estamos a transitar da macro prospetiva para a micro prospetiva. No modo analógico procura-se a estabilidade de uma relação causa-efeito através da gestão de tendências e previsões, enquanto no modo digital se procura uma correlação mais determinística através de padrões, predições e prescrições do protocolo algorítmico. Todavia, perante uma contingência tão elevada e recorrente, a prospetiva deixa de ser o futuro como progresso e passa a ser o futuro como risco e probabilidade. Ou seja, em vez de uma grande prospetiva para a configuração de um futuro melhor, temos hoje uma rotina burocrática e administrativa, uma micro prospetiva incremental onde a decisão política se tornou modesta e, quantas vezes, inconsequente.

No modelo híbrido em que estamos mergulhados, ao mesmo tempo analógico e digital, corremos o sério risco de passar por um processo kafkiano absolutamente inusitado, um mundo cheio de processos e procedimentos, códigos e protocolos, metas e métricas, burocracias e controlos algorítmicos. Este é o vórtice em que estamos, desde já, mergulhados. Neste ambiente saturado é impossível não acontecerem vários acidentes e incidentes, fortuitos, imprevistos e absurdos. É, portanto, o tempo e o campo apropriados para desenvolver uma hermenêutica interpretativa mais complexa, um novo modelo de linguagem conseguido, talvez, com a ajuda da inteligência artificial. É, também, a oportunidade para investigar qual o modelo de teoria prospetiva mais ajustado a esta nova contingência da história da humanidade, agora mais próxima do seu ponto de singularidade, transumano e pós-humano. Na teoria histórica da prospetiva já passámos pelos oráculos e profecias, pela superstição e bruxaria, pela planificação e previsão e pelos métodos mais convencionais da prospetiva. Seja como for, mergulhados no paradoxo da incerteza e confrontados com um crescente populismo e ingovernabilidade política resta-nos estar alerta, manter a sensatez e o bom senso e não trocar os fins pelos meios, ou seja, a estupidez humana pela estupidez artificial. Teremos de voltar ao assunto.


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