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António Lobo Antunes, o avesso da alma e a geografia do silêncio

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06.03.2026

Recorro às minhas notas como quem se debruça sobre um rio inverso, um cúmulo de pequenas nuvens carregadas de águas prodigiosas que, por vezes, ameaçam inundar tudo. Não possuo essa mítica memória de elefante que alguns se atribuem; a minha é a simples e necessária evanescência de ter anotado com profusão aquilo que, no instante preciso de uma leitura atenta, de um livro ou de uma entrevista, ou de uma conversa reveladora, talvez casual, conseguiu atrair a minha atenção consciente. Essas notas são o combustível da imaginação e a possibilidade de um futuro que se constrói sobre o que outros pensaram antes. No meio dos dias sempre paradoxais e surpreendentes, surge hoje a figura de um gigante que acaba de cruzar o limiar da história: o autor português António Lobo Antunes, aquele que escreveu: "O máximo que, em geral, recebemos da vida, é um certo conhecimento dela que chega demasiado tarde".

Lobo Antunes, falecido este 5 de março de 2026, foi muito mais do que um escritor; foi um psiquiatra das palavras que soube dissecar a condição humana com a precisão de um cirurgião e a angústia de um sobrevivente. Nascido no bairro lisboeta de Benfica em 1942, no seio de uma........

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