Uma frase perfeita para o senhor Caires
No princípio do mês de novembro de 2010, quando eu vivia numa missão em Moçambique, fui atacado por um bicharoco hiperagressivo – um vírus, uma bactéria, uma porcaria qualquer dessa família de bichos invisíveis e nojentos – e fiquei com os pés para a cova. Tive febre alta e diarreia intensa durante vários dias e pensei seriamente que não chegaria vivo ao dia de São Martinho – o dia do meu aniversário. Pensei que iria morrer antes de completar 43 anos, estendido numa cama exígua, sozinho, num quarto ao fundo do corredor, numa missão em África, longe da minha terra, longe da minha família, longe dos meus amigos.
Então, para conter o desânimo e afogar o choro naquelas horas nefastas, eu tentava construir uma frase perfeita para iniciar a narrativa da minha vida em África, onde já me encontrava há três anos, uma frase que fosse deslumbrante, profunda, original, uma frase que justificasse a minha morte ali, tão simples e exemplar como “Eu tive uma fazenda em África” – estão a ver o estilo? –, ou “O branco da zona, num........
