Mesmo na hora da partida
Coimbra já foi Coimbra, mas agora é uma merda! O homem na rua logo atrás do herói não parava de repetir isto: Coimbra já foi Coimbra, mas agora é uma merda! Dizia-o em tom agressivo e o herói, sem nunca olhar para trás, pensou que o tipo era um toxicodependente, ou melhor, um drogado, como se dizia no tempo em que Coimbra era Coimbra. Um drogado. Um bandalho. Um vadio. Um gatuno. O outro, porém, insistia: Coimbra já foi Coimbra, mas agora é uma merda! O gajo não parava com esta conversa, avançando pela rua em direção ao rio, como se estivesse a falar com alguém.
Depois, o herói desviou-se para levantar dinheiro numa caixa multibanco e o drogado perdeu-se na multidão e a sua figura permaneceu para sempre desconhecida, mas o que ele disse ainda hoje ecoa na sua memória, pois sempre o incomodou o desprezo que as pessoas atribuem à cidade que lhes pertence, a cidade onde nasceram, a cidade onde vivem, a cidade onde o destino as assentou. É uma tristeza. É uma pobreza de espírito. É como cuspir na sopa........
