Anatomia de um ataque de pânico
No dia 11 de fevereiro de 1996, tinha eu 28 anos, bebi dez cervejas entre a meia-noite e as quatro da manhã e depois regressei de táxi a casa, nas zonas altas de Santo António. Pelo caminho, faltou a luz e, quando cheguei ao Laranjal, por volta das quatro e vinte, todo o concelho estava ainda às escuras e eu emocionei-me com a noite pura sobre mim. Só havia luz no hospital e no porto e, pelas estradas, aqui e acolá, os faróis dos carros rasgavam de vez em quando a escuridão. No céu, a lua e as estrelas clareavam a paisagem, evidenciando o casario disperso nas encostas, e eu pensei:
Para não me esquecer, escrevi num caderno que tinha gostado imenso de ver a minha terra assim, no meio da noite, embora estivesse a viver um tempo estranho naquela altura.
A minha mãe tinha morrido no ano anterior, com apenas 59 anos – a idade que estou prestes a fazer – e, poucos dias antes, tinha morrido um motorista da empresa onde trabalhava. Morreu em serviço, vítima de um colapso cardíaco. Tinha 44 ou 45 anos e nós ficámos todos pasmados. Calou-se de um momento para o outro, sem mais nem menos,........
