As causas do nosso “pequeno” juro de 15% ao ano
O nosso país é engraçado, fazemos um esforço enorme para termos o maior juro do mundo e depois dizemos que os nossos problemas são os próprios juros que há tempos estão em 15% ao ano.
É como aquela pessoa que toma cortisona e por isso está se sentindo em forma, apesar da pneumonia que tem.
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Este governo e Congresso aprovaram um arcabouço fiscal que proíbe o não crescimento de gastos. Nas regras atuais, o mínimo de crescimento do gasto público é de 2,5% em termos reais, e, na prática, tem crescido acima de 3% todos os anos desde o início deste mandato, mesmo que isso acarrete em um grande crescimento de nossa dívida, que hoje já tem um padrão quase exponencial. A nossa dívida cresce 4 pontos do PIB anualmente, se situando em torno de 83% do PIB ao final de 2026.
E esse crescimento de dívida também acontece porque governo e Congresso teimam em colocar despesas por fora das metas, ou seja, quando não conseguem estar dentro da meta, arrumam um “puxadinho” fora dela, tudo isso pressiona mais a demanda e reduz significativamente a credibilidade do arcabouço fiscal.
Do que estamos falando?
Primeiro, anualmente o governo joga lenha na economia, o gasto crescendo desta forma na verdade é expansão na veia, que amplia a demanda agregada. Mesmo em momentos como o atual, onde precisamos esfriar um pouco a demanda para a inflação arrefecer e irmos em direção a 3% ao ano, o governo continua a ampliar seus gastos, indo na contramão do esforço do BC quando sobe os juros, é o que os economistas chamam de impulso fiscal.
Quando temos políticas indo em direções contrárias, de um lado o BC apertando e de outro o governo expandindo, claro que seu resultado não é o que precisamos e, na verdade, temos muito esforço para resultados que acabam se anulando, do lado do BC isso quer dizer, infelizmente, que ele tem que subir mais para ter o resultado que gostaria.
O segundo ponto é que, com a expansão fiscal acontecendo anualmente de maneira irresponsável, sem a devida cobertura de mais receitas resultando em um crescimento tão grande de nossa dívida pública, a consequência natural é o aumento do custo de sua rolagem, aumentando também o que chamamos de prêmio de risco, que hoje esta já em um nível bastante elevado.
O terceiro ponto, e ficarei por aqui, é o quanto o nosso mercado de crédito é subsidiado, ou direcionado, algo com 50% do total.
Qual o problema aqui?
Temos dois problemas advindos de tanto crédito subsidiado. O primeiro é o custo dessa política, em várias formas de crédito subsidiado dados por entidades ligadas ao governo, que acabam custando muito aos cofres públicos, ampliando o nosso déficit.
O segundo é que, por ser subsidiado, ele não se afeta pelas mudanças na política monetária, ou seja, ele não é sensível a alta de juros, é como se o BC, para gerar o mesmo efeito no mercado de crédito, tivesse que subir o dobro para ter o mesmo efeito, já que sua política só afeta metade deste canal transmissor da política monetária.
Enfim, a nossa taxa de juros não é tão alta à toa, fazemos um enorme esforço para isso, só não devíamos nos surpreender depois de tantos movimentos para que isso acontecesse.
