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O famigerado anacronismo progressista

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“Em face do passado, a consciência crítica parte do pressuposto de que esse é alienação e opressão e que, portanto, cumpre exorcizá-lo (como um psicanalista faz com as imagens da infância) e de modo que possamos abolir toda a sobrevivência das gerações anteriores em nós.” (João Camilo de Oliveira Torres)

É comum as pessoas questionarem o meu conservadorismo com base numa visão equivocada do que significa ser conservador. “Você quer conservar a desigualdade?” – perguntam sempre. Já tratei disso aqui, nesta Gazeta do Povo, de modo que não me estenderei, e minhas posições estão claramente expostas em tudo o que falo e escrevo. Sou conservador porque julgo que, por exemplo, determinadas conquistas civilizacionais devem ser preservadas, mesmo diante de mudanças urgentes. Não se deve, como dizia minha sábia mãe, jogar a criança com a água do banho.

Entretanto, minha posição pode ser defendida também por aquilo que não acredito, em contraste com a posição progressista, que se baseia, antes de qualquer coisa, numa visão de mundo irrestrita (também expliquei isso aqui), que julga o ser humano perfectível e o progresso como fruto unicamente da vontade. Há variações nessa posição, mas, para um progressista típico, o desejo por um mundo melhor é um objetivo não só possível, mas realizável à medida que diminuirmos as nossas desigualdades, as nossas contradições, os nossos preconceitos etc.

A posição radical do progressismo, os revolucionários – onde estão os comunistas e, mais recentemente, os identitários –, passa pela negação de tudo o que está aí. Não há conciliação possível entre o mundo que vivemos e o que os revolucionários desejam construir. Todos os problemas são microcategorizados em estruturas de opressão que precisam ser devidamente derrubadas para que uma outra realidade se estabeleça. É o ápice da imanentização do eschaton cristão.

A principal ferramenta dos identitários é o anacronismo, a atribuição de ideias, categorias, valores ou práticas de um tempo histórico a outro tempo em que elas não existiam ou não tinham o mesmo significado

A principal ferramenta dos identitários é o anacronismo, a atribuição de ideias, categorias, valores ou práticas de um tempo histórico a outro tempo em que elas não existiam ou não tinham o mesmo significado

E em que os revolucionários sustentam suas posições? Como é possível fazer um julgamento tão radical da sociedade a ponto de pressuporem que somente uma alteração completa daquilo que se conhece, por exemplo, como Civilização Ocidental é capaz de estabelecer o mundo melhor? Bem, eles fazem isso falseando a realidade através de teorias sociais abstratas que lhes deem a autoridade de juízes não só do presente, mas do passado. E a principal ferramenta para tal é o anacronismo, a atribuição de ideias, categorias, valores ou práticas de um tempo histórico a outro tempo em que elas não existiam ou não tinham o mesmo significado.

Cada grupo, então, escolhe suas armas. O movimento negro se agarrou à teoria do racismo estrutural; o feminismo, à ideia de patriarcado; o movimento LGBT, na quebra dos padrões de gênero e sexualidade; e assim por diante. E todas essas posições são carregadas de um artifício quase irresistível: o ressentimento e a chantagem emocional........

© Gazeta do Povo