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Irmandades do Rosário: fé e resistência negra em Ouro Preto

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25.06.2026

“Com propriedade e justiça, aplico aos Santos Elesbão e Ifigênia o egrégio título de Dois Atlantes da Etiópia. Com justiça, porque é certo que usamos desta palavra ʻAtlanteʼ falando em varões ilustres, que, com valor, ciência ou virtude sustentaram о decoro e a glória dos Reinos, Repúblicas e Monarquias […]. Remontam-se estes de sorte sobre as nuvens, que, avizinhando-se ao Céu, parece, que em seus ombros o sustentam para que nunca rendido com o seu mesmo peso, afrouxe e venha a cair sobre a terra.” (Introdução à obra Os dois atlantes de Etiópia: Santo Elesbão, Imperador XLVII da Abissínia, advogado contra os perigos do mar; Santa Efigênia, princesa da Núbia, advogada contra os incêndios dos edifícios; ambos carmelitas, publicado em 1738)

Estive novamente em Ouro Preto. Após duas viagens para lá no ano passado – que, inclusive, renderam uma série de artigos aqui, nesta Gazeta do Povo (sobre Aleijadinho e Mestre Ataíde, por exemplo) –, retornei com minha esposa para, mais uma vez, me maravilhar com tudo o que aquela cidade representa – para o Brasil de modo geral e para mim especificamente.

Como o leitor deve saber, sou protestante; evangélico, para ser preciso nos termos atuais. Mas isso não me impede de admirar a história e a espiritualidade barrocas do país – mais especificamente, de Minas Gerais –, que reputo ser a maior contribuição brasileira às artes e à fé católica. A mulatice barroca de Aleijadinho e Ataíde, na arquitetura e nas artes; de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita e Francisco Gomes da Rocha, na música sacra; e muitos outros mestres das artes, nascidos em Ouro Preto (antiga Vila Rica), muitos negros (na atual classificação do IBGE), nos desnudam um Brasil que nos escapa, sobretudo nos tempos atuais, no qual tudo o que se relaciona a pessoas negras é pautado, de um lado, pela subalternidade, e, por outro, pela vitimização.

Ouro Preto abriga o Brasil mais brasileiro de todos em seu esplendor máximo. O Brasil das contradições, essencialmente pardo numa nação que, durante muito tempo, se desejou branca. O Brasil da fé popular, da devoção mística, da beleza rústica de suas ladeiras e de sua paisagem deslumbrante. Um paraíso recuperado e mantido pela imponência encantadora de suas igrejas. As horas e horas incansáveis que passei andando por aquelas ruas, atento em cada detalhe, em cada instante de graça, em cada suspiro de esperança, em cada marca de sofrimento, me levaram a um mergulho em mim mesmo, em própria minha fé e em meu amor pelo que é belo – pelo nosso Belo.

Cada uma daquelas igrejas guarda uma quantidade........

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