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África: guardiã do conservadorismo no século 21

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22.04.2026

“O colonialismo roubou dos africanos não apenas seus recursos naturais, mas, ainda mais importante, sua autoconfiança e sua liberdade de governar a si próprio […]. Há um novo colonialismo em nosso tempo – não de terras ou recursos naturais, mas do coração, mente e alma da África. É um colonialismo ideológico.” (Obianuju Ekeocha)

O recente endurecimento das leis anti-LGBT na África são vistas, no Ocidente, como retrocesso, uma vez que diversas sociedades africanas pré-coloniais toleravam ou institucionalizavam práticas que hoje associaríamos à diversidade sexual. Mas isso não significa que compartilhavam das categorias identitárias modernas, que são produto de transformações culturais recentes. Entre a ideia de uma tradição africana intrinsecamente hostil e a de um passado amplamente permissivo, há um terreno mais preciso: o de sociedades que organizavam sexo e gênero segundo lógicas próprias, incompatíveis com os termos do debate contemporâneo, e é aí que a discussão precisa ser situada.  Podemos colocar o feminismo sob a mesma perspectiva.

Em 2021, a romancista nigeriana Chiamamanda Ngozi Adichie, autora de best-sellers como Hibisco Roxo e Meio Sol Amarelo, foi entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura. Adichie, que ficou conhecida mundialmente por uma palestra no TED Talks, em 2009, na qual falou do “Perigo de uma história única”, no Brasil caiu nas graças das feministas negras, anos depois, por outra minipalestra TED, cujo tema foi “Todos nós deveríamos ser feministas”, de 2012.

O problema é que não demorou muito para Adichie entrar em conflito com o feminismo identitário. Começou com um comentário, numa entrevista à apresentadora Cathy Newman, do Channel 4, na qual disse que “mulheres trans são mulheres trans”, e, ainda: “não acho que seja bom misturar tudo numa coisa só. Não acho que seja bom tratar as questões das mulheres como exatamente iguais às questões das mulheres trans. O que estou dizendo é: gênero não é biologia, gênero é sociologia”.

Foi chamada de transfóbica e passou um longo período tendo de defender a sua posição, o que a levou a escrever em seu site um longo artigo contra a cultura do cancelamento, gerando ainda mais controvérsia ao dizer, dentre outras coisas, que há “uma geração de jovens nas redes sociais com tanto medo de ter as opiniões erradas que se privaram da oportunidade de pensar, aprender e crescer”. Depois, numa entrevista a Emma Barnett, do canal Bloomberg, defendeu J.K. Rowling por suas posições frontalmente contra o ativismo trans. E disse: “quando comecei a ler sobre como ela estava sendo atacada, fui ler o que ela havia escrito e achei perfeitamente razoável. Não vi por que precisava ser atacada. Acho que foi tratada de forma abominável”.

“Não existe muita consciência das religiões africanas tradicionais entre jovens nigerianos (...) O que me interessa cada vez mais é como africanizar o cristianismo.”Chiamamanda Ngozi Adichie

“Não existe muita consciência das religiões africanas tradicionais entre jovens nigerianos (...) O que me interessa cada vez mais é como africanizar o cristianismo.”

Creio que, para além das controvérsias que tais declarações geram na atualidade, elas mostram, na verdade, que Chimamanda Adichie não deixou sua liberdade de expressão e sua visão de mundo serem influenciadas pelo pensamento coletivista dos movimentos identitários. Porque é uma escritora e, como tal, não pode se deixar aprisionar. Falou sobre isso no Roda Viva, e reafirmou seu compromisso com sua arte. Numa entrevista recente à Revista Cultured, disse que sua “visão de mundo é muito marcada pela fé – até pelo otimismo – na capacidade das pessoas de encontrarem sua tribo. O isolamento profundo não é algo pelo qual tenho particular interesse”.

Mas a entrevista no Roda Viva não passou sem momentos constrangedores, provocados justamente por alguns jornalistas nessa tentativa de colocá-la em caixinhas ideológicas. A começar que o feminismo de Adichie é, em essência, humanista e universalista, e parte da experiência vivida de mulheres concretas (especialmente negras e, mais especificamente, africanas). É progressista, mas não ideológico, abstrato. Depois, ela é católica. Sempre reafirmou isso e jamais mostrou qualquer intenção de mudar. E foi curioso ver como respondeu a uma pergunta sobre religião.

A certa altura, a professora e militante do feminismo negro Carla Akotirene fez uma pergunta prolixa, caricata e um tanto inusitada à escritora: “Professora, aqui no Brasil, temos enfrentado o terrorismo religioso, que é a maneira pela qual nós, que somos de matriz africana através do culto aos orixás – eu sou uma mulher de Oxum, cultuo Xangô –, nós procuramos, ainda que desse lugar de feminismo, resgatar a potencialidade dos orixás, e suas obras para nós, representam esse resgate com os nossos antepassados: com a justiça de Xangô, com a matripotência de Oxum, com o ímpeto de Oyá”.

Nesse momento, Adichie parecia um tanto espantada com o que ouvia, mas a entrevistadora continuou e, finalmente, concluiu com uma pergunta dupla: “Nesse sentido, eu quero saber até que ponto podemos nos filiar à religião de matriz africana para construirmos um novo modelo de sociedade, um novo modelo de relações humanas? Qual o papel da religião pra você?” A resposta da escritora foi, de certo modo, um balde de água fria nas expectativas da nossa militante. Peço perdão pela longa citação, mas é necessária (para não dizer hilária):

“Bem, acho que o mais importante a dizer, antes de mais nada, é que por todo o continente africano o cristianismo pentecostal é simplesmente........

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