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Maioria dos psicólogos crê em Deus, mas só discute religião com paciente se ele pedir

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14.03.2026

A revista acadêmica Spirituality in Clinical Practice, publicada pela Associação Americana de Psicologia, publicou em fevereiro um perfil dos psicólogos brasileiros no que diz respeito à religiosidade pessoal, à percepção sobre os efeitos da fé na saúde mental, e à interação com pacientes. O artigo tem como base a tese de doutorado de Pedrita Reis Vargas, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (Nupes-UFJF), defendida em 2019, com dados coletados entre 2016 e 2018. Dos 4,3 mil psicólogos com registro em conselho que responderam ao questionário, 83,4% acreditam em Deus e quase 80% têm alguma filiação religiosa, mas eles evitam tomar a iniciativa de conversar sobre religião com os pacientes: quase 78% dos entrevistados acham inapropriado discutir religião ou espiritualidade com os pacientes se eles mesmos não trouxerem o assunto à tona.

A religiosidade dos psicólogos foi uma das constatações que surpreenderam Pedrita. “Durante muito tempo existiu uma percepção de que a psicologia seria um campo majoritariamente distante da religião. O que os dados mostram é que a realidade é mais complexa: muitos profissionais têm crenças pessoais, mas isso não significa automaticamente que essas crenças orientem a prática clínica – e nem deveria”, afirmou ela ao Tubo de Ensaio. Além dos dados sobre crença em Deus e filiação religiosa, a pesquisa ainda identificou que um terço dos entrevistados participa de cerimônias religiosas (missa, culto etc.) ao menos uma vez por semana, e 41% reportaram altos índices de religiosidade.

Psicólogo não pergunta sobre religião, mas pacientes costumam trazer o tema

O fato de os psicólogos terem crenças religiosas ou espirituais, considerarem a fé importante em suas vidas ou frequentarem templos ou igrejas não significa que eles tenham o hábito de puxar o assunto com seus pacientes: 77,9% dizem que é inapropriado falar de religiosidade ou espiritualidade com os pacientes por iniciativa própria. Isso não significa que a fé passe longe dos consultórios: quatro em cada cinco entrevistados (80%) afirmaram que os pacientes trazem o assunto ao menos de vez em quando.

“Durante muito tempo existiu uma percepção de que a psicologia seria um campo majoritariamente distante da religião. O que os dados mostram é que a realidade é mais complexa.”Pedrita Reis Vargas, pesquisadora do Nupes-UFJF

“Durante muito tempo existiu uma percepção de que a psicologia seria um campo majoritariamente distante da religião. O que os dados mostram é que a realidade é mais complexa.”

Se é o paciente quem traz a religião para a consulta, são 70,1% os psicólogos que acham apropriado discutir o tema, indicando que uma parcela significativa, ainda que minoritária, não acha que seja uma boa ideia conversar sobre religião com os pacientes mesmo quando são eles que tomam a iniciativa. A principal atitude descrita pelos entrevistados é a de ouvir respeitosamente; às vezes os psicólogos encorajam a prática religiosa dos pacientes, raramente compartilham as próprias experiências e quase nunca rezam junto com os pacientes – atitude considerada inapropriada por 67,5%. “A psicologia clínica é centrada no paciente. O que orienta o processo terapêutico são os valores e a experiência da pessoa atendida, não as crenças pessoais do profissional”, diz Pedrita.

Psicólogos avaliam efeitos da espiritualidade sobre a saúde mental

A maioria dos psicólogos disse considerar que a religião e a espiritualidade podem ajudar o paciente a lidar com dor, o sofrimento ou a doença, mas também que elas podem provocar culpa, ansiedade ou sentimentos negativos – 90% e 70%, respectivamente. A pesquisa encontrou algumas correlações interessantes: os psicólogos que têm fé religiosa tendem mais a acreditar em efeitos benéficos da espiritualidade sobre os pacientes; no sentido contrário, os psicólogos com maior grau acadêmico (mestrado ou doutorado), e os que seguem a linha da psicanálise, são mais propensos a destacar os efeitos negativos.

Comentando esses números, Pedrita alertou que correlação não significa causalidade, e por isso ela apenas levanta algumas hipóteses interpretativas. “Uma das possibilidades é a de que a formação acadêmica mais avançada estimule uma postura mais crítica em relação às instituições sociais, incluindo as religiosas. Esses profissionais também costumam estar mais........

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