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A imprensa e sua insistente tentativa de paganizar o cristianismo

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“Os Evangelhos revelam a verdade plena, inteira, sobre a gênese dos mitos, sobre o poder de ilusão dos arrebatamentos miméticos, sobre tudo que os mitos necessariamente não revelam, pois estão sempre dominados pelo engano.” (René Girard)

De tempos em tempos, uma ordem unida parece ecoar nas províncias de redação: “desmistifiquem o cristianismo, desmintam os dogmas da Igreja” – dizem redatores a repórteres e estagiários atarantados, que então saem correndo, esbaforidos, à caça de algum especialista que lhes possa fornecer aspas sobre tema do qual desconhecem praticamente tudo. O expediente habitual nessas horas é a paganização do cristianismo: a tentativa de apresentar uma nova prova “científica” de que – viu só? – Jesus Cristo foi mais uma criação mitológica como tantas outras, uma variação sobre temas e contextos do universo religioso antigo.

Uma matéria publicada hoje pela BBC Brasil – e sintomaticamente reproduzida pela Folha de S.Paulo, pelo G1, e possivelmente por mais uns tantos veículos enquanto escrevo estas linhas, numa clara tentativa de agenda setting – veio cumprir a missão. Uma matéria cujo título contém, em estado embrionário, todo o equívoco que o texto depois desenvolve com aplicação jornalística: “Quem foi Apolônio, o ‘Jesus grego’ que foi cancelado pelo cristianismo”. Uma matéria, aliás, de periodicidade sazonal – pois, há coisa de dois anos, a mesma BBC já havia publicado sobre o mesmíssimo personagem, tratando-o também como um “Jesus pagão”. Já se pode antever que, por volta de abril/maio de 2028, sairá do forno uma nova matéria quentíssima sobre Apolônio.

De tempos em tempos, uma ordem unida parece ecoar nas províncias de redação: “desmistifiquem o cristianismo, desmintam os dogmas da Igreja”

De tempos em tempos, uma ordem unida parece ecoar nas províncias de redação: “desmistifiquem o cristianismo, desmintam os dogmas da Igreja”

A escolha de palavras revela muito sobre a estranha relação entre a imaginação secular progressista e a fé cristã. “Jesus grego” – como se Jesus fosse uma marca registrada de um produto que os gregos teriam lançado antes, em versão anterior e talvez mais autêntica. “Cancelado pelo cristianismo” – como se a diferença entre os dois personagens fosse um problema de marketing, de poder institucional, de vitória editorial de uma narrativa sobre outra. O que a reportagem não consegue fazer – menos por falta de esforço que pela carência dos instrumentos conceituais adequados – é responder à pergunta........

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