O PSD trocou Kant por Maquiavel
O PSD é hoje um partido maquiavélico. A expressão não surge em forma de insulto ou acusação, é mera constatação da realidade. Não pretendo afirmar que o meu partido está a fazer tudo mal e de forma errada – não está! Está apenas a ser pragmático, como reconheceu recentemente em entrevista ao Expresso o próprio Hugo Soares.
Aí, como seria de esperar, distanciou-se do legado de Rio, pois quando se apresenta uma alternativa, é natural e saudável que o rumo das coisas não seja o mesmo. No entanto, creio que o maior contraste do PSD de Rio para o PSD de Montenegro vai além da política corriqueira do dia-a-dia. Não se traduz apenas numa guinada à direita, nem tão pouco numa dualidade de partido de oposição para partido de poder.
A principal diferença entre as duas visões do partido é algo de mais substancial e profundo: o PSD abandonou Kant e abraçou Maquiavel.
Durante os quatro anos de liderança de Rio, o partido tinha uma estratégia: a de não ter nenhuma. Muitos eram os críticos (internos e externos) desta abordagem desinteressada de Rio à Política. O anterior líder não dava grande importância a essa oposição e até ao fim não abdicou do seu ideal de que os tão frequentes calculismos políticos não eram para si. Em vez disso, preferiu sempre priorizar o interesse da Nação e só depois o do PSD e o pessoal. Foi um mantra por si seguido e evocado inúmeras vezes e encontra forma, por exemplo, na crise pandémica — onde recusou uma oposição feroz ao governo para daí obter ganho político. Enquanto muitos o acusavam de estar a servir de muleta do PS, menos eram os que o apoiavam, e isso ficou lapidado nas legislativas de 2022, que abriram portas à sua saída.
Se Kant defendia o bem pelo bem, independentemente das circunstâncias ou consequências, também Rio adotou o imperativo categórico sem nunca ceder ao consequencialismo. Colocou sempre o interesse nacional à frente de qualquer outro, fosse isso proveitoso para si, ou não.
No Séc. XVI, Maquiavel condenou esta abordagem moral da política. Talvez pela secularidade e força do argumento, Rio não era a regra, mas foi sim exceção. O PSD mudou e volta a ser hoje um partido que faz uso dos ensinamentos de Maquiavel e isso é visível em vários casos que apenas me abstenho de enumerar para não aborrecer (ainda mais) o leitor.
No entanto, não foi o único a fazê-lo. Foi assim com o PS há largos anos, com o Chega desde a sua génese; e o puritanismo deixou até mesmo de ter lugar nos partidos mais ideológicos como o Livre e a IL.
O pragmatismo mostra-se necessário para vingar e chegar ao poder na política contemporânea. Assim, não consigo afirmar que, nessa medida, a atual liderança do PSD esteja incorreta ao adotar essa linha.
Quando o objetivo é conservar ou conquistar o poder, tudo passa a ser legítimo – foi o chavão deixado por Maquiavel. Tinha uma visão amoral da política e numa sociedade em que a moralidade ocupa cada vez menos espaço, é necessariamente a sua lógica que se impõe. O caso da nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional é um exemplo claro de Maquiavelismo em que o Nacionalismo – a Nação à frente de tudo – não tem voz na atual assembleia.
Como é que deixamos um dos órgãos vitais da República por completar há quase um ano? Onde ficou o sentido de Estado dos partidos políticos? O do Chega nunca existiu e, por isso, não esperava que cedesse a favor do PS reconhecendo o legado do passado ou até que se auto-reconhecesse como avesso a este órgão. Embora fosse um excelente exercício de boa vontade – que não existe no partido de Ventura – não é algo que se lhe possa exigir. Já o PS, por muito que lhe custasse, devia ter sabido ceder. A composição do Parlamento não é a do costume. É certo que não sabemos se a expressão do Chega é circunstancial ou se será para ficar, mas se a nomeação deve acontecer agora, a circunstância é fator fundamental.
Esperava(-se) mais e melhor de José Luís Carneiro. Antes, prometia diálogo e saber o seu lugar, agora revela que dá mais importância à voz crítica do PS do que dá à dos Portugueses. O líder da oposição de esquerda não deve dizer que sim a tudo, mas deve ser razoável. Tudo indicava que o seria antes de chegar à posição que ocupa, mas hoje sabemos que não o é. Parece viver um momento de quase desespero para agradar a todos dentro do seu partido. Prova disso é que Hugo Soares possa afirmar que “este PS ainda guina mais à esquerda do que guinava o PS de Pedro Nuno Santos” sem que tal declaração seja chocante. Talvez Carneiro tenha aprendido com Rui Rio que ser discípulo de Kant não traz bom resultado…
Como escreveu Cavaco Silva, temos hoje uma oposição que recorre a “ações de desgaste visando impedir a concretização das reformas, a que junta a tentativa de governar o país a partir da Assembleia da República”. O que ninguém parece entender (políticos e Povo) é que, no longo prazo, ninguém ganha a substituir Kant por Maquiavel. Embora os partidos possam, num futuro próximo, colher frutos dessa estratégia consequencialista, trata-se de um exercício totalmente prejudicial para a Nação. Um inutilitarismo completo. Com a oposição maquiavélica que critica ferozmente cada passo que o governo toma, o país paralisa, e os ditos nacionalistas não atacam nada mais do que a Nação.
Portugal pouco ou nada cresceu nos últimos 20 anos. A política de estadistas pelo bem comum, quando existe, é altamente contestada por oportunos imediatistas. Veja-se o que acontece no PS quando o seu líder adota a posição moderada e construtiva e veja-se o que acontecia no PSD de Rio, há uns anos, quando este recusava a crítica injustificada e sem fundamento razoável. Rio caiu e o seu PSD pouco é ou faz na comunicação social. Não estou otimista quanto ao PS de José Luís Carneiro e creio que estará condenado à fatídica condição: ou o líder muda, ou muda-se o líder. Pelo impasse na nomeação de juízes para o Tribunal Constitucional, podemos adivinhar qual o caminho que se ilumina (e não é o do Estadismo).
A política deve ser para Kantianos, não para Maquiavelistas, mas, para isso, é preciso que o Povo o perceba. Com o abandono da cultura, da religião e da tradição, o Povo abandona também uma ideia conjunta de moral e do que é o bem comum. Quando assim é, a Nação está condenada, pois se para entender a moral de Kant é preciso ler ou ir à missa, para aplicar Maquiavel basta ter redes sociais e existir no mundo imediatista da atualidade.
