menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

As árvores já não morrem de pé? um alerta para a urgência da ação climática e da resiliência nacional

13 0
03.03.2026

A recente vaga de tempestades que passou por Portugal, especialmente a Kristin, deixou um rasto de destruição material e humana, perturbações sociais e impactos económicos que não podem ser analisados como um evento isolado. A vista aérea do pinhal de Leiria com quilómetros de árvores cortadas a meio pela fúria do vento é uma imagem triste e mais um sinal poderoso de que as alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem uma realidade presente com consequências evidentes para países, empresas e cidadãos.

Vivemos uma era marcada pela intensificação de fenómenos meteorológicos extremos.

Tempestades, secas, incêndios e cheias tornaram-se mais frequentes e complexos. Portugal, pela sua localização, está particularmente exposto, o que exige uma resposta estruturada, coordenada e urgente. Já passámos a fase de mitigação destes impactos, esta é a hora de trabalhar a adaptação e a inclusão destes riscos nos planos empresariais, nacionais e até individuais.

A expressão “urgência climática” alerta-nos para os riscos do aquecimento global e para o facto de vários limites planetários já estarem a ser ultrapassados.

Desde a assinatura do Acordo de Paris, têm sido feitos progressos relevantes na redução das emissões globais e o mundo estaria hoje em pior situação sem esses esforços coletivos. No entanto, a segunda administração de Trump tem adotado medidas que contrariam o consenso científico. Depois de anunciar a saída dos Estados Unidos da América do Acordo de Paris, revogou recentemente a Endangerment Finding, decisão científica e legal que, desde 2009, sustentava a regulação federal das emissões de gases com efeito de estufa. Esta medida remove o principal fundamento jurídico para limitar as emissões de veículos, centrais elétricas e outras fontes industriais, constituindo um dos mais significativos retrocessos na política climática das últimas décadas.

É precisamente neste contexto de avanços frágeis e recuos preocupantes que a recente catástrofe em Portugal ganha maior significado. O custo da inação — ou da ação insuficiente — é enorme. Os danos registados em infraestruturas, redes energéticas, sistemas de transporte e cadeias logísticas demonstram a necessidade de reforçar a resiliência do território e dos sistemas críticos, acautelando o bem-estar e a segurança das comunidades. E recordam-nos igualmente que as alterações climáticas são um desafio global que ultrapassa fronteiras.

A comunidade internacional enfrenta o desafio de reduzir rapidamente as emissões de gases com efeito de estufa, enquanto reforça a capacidade de resposta a fenómenos extremos que já não podem ser evitados. O cumprimento dos compromissos climáticos, o reforço da cooperação internacional e o financiamento da adaptação serão determinantes para assegurar estabilidade económica e social à escala global.

Portugal enfrenta o duplo desafio de adaptar o território às novas condições climáticas e de acelerar a transição para uma economia neutra em carbono. Neste contexto, as empresas têm um papel central: os riscos climáticos são também riscos empresariais, com impacto nas operações, cadeias de abastecimento, emprego e mercados. As organizações têm de se transformar e integrar o risco climático nas suas estratégias, desenvolvendo modelos de negócio mais resilientes e sustentáveis, investindo em eficiência energética, energias renováveis, economia circular e soluções baseadas na natureza. Torna-se igualmente essencial reforçar planos de continuidade operacional e mecanismos de resposta a situações de crise.

A sustentabilidade não deve ser encarada como um custo adicional, mas como motor de inovação, competitividade e criação de valor a longo prazo. As empresas que anteciparem os riscos associados às alterações climáticas estarão mais bem preparadas para enfrentar um contexto económico cada vez mais exigente e volátil.

A preparação para fenómenos climáticos extremos deve ser assumida como uma prioridade estratégica nacional e empresarial. A experiência demonstra que o investimento em prevenção e resiliência é significativamente mais eficaz e menos oneroso do que a resposta reativa.

Governos, empresas, academia e sociedade civil precisam de atuar de forma coordenada e ambiciosa para enfrentar um dos maiores desafios do nosso tempo. A transição climática representa não apenas uma necessidade ambiental, mas também uma oportunidade histórica para modernizar a economia, promover inovação, criar emprego qualificado e construir uma sociedade mais resiliente, inclusiva e sustentável – uma sociedade onde as árvores ainda possam morrer de pé!


© Expresso