Tendas, tanques, piercings, champô, banho e fiambre: os seis graus de separação de uma casa
No passado dia 24 de outubro desci a Avenida da Liberdade com mais 25 mil pessoas. Fazia uma semana e picos, tinha havido uma carga policial violenta na Praça D. João I, no Porto, minutos antes das três da manhã. Nessa altura — parece que foi há uma vida — parecia que a essa hora podíamos estar tranquilos, e suponho que foi mesmo por esse motivo que a carga policial aconteceu a essa hora. Números oficiais: 35 manifestantes feridos, dois hospitalizados e um deles, não sei se hospitalizado ou não, fotografado estendido no chão com a cara encharcada de sangue.
No dia seguinte, o atual executivo (todas as minúsculas são intencionais) e figuras-satélite uniram-se em bloco — de direita — para aplaudir a atuação exemplar das forças da ordem. Rui Cardoso, deputado do Chega, disse que os manifestantes eram arruaceiros e vândalos, que “não precisam de habitação, quanto muito (sic) precisam de um champô e tomar banho”.
Para quem não conhece o deputado Rui Cardoso, que assim descreveu os jovens manifestantes reunidos no Porto, Ricardo Araújo Pereira descreveu-o a ele como o Cara de Charcutaria, e parece que o rótulo está para durar. Será injusto, porque o fiambre não tem cabelo, e o deputado Rui Cardoso preocupa-se visivelmente com o seu. O rótulo que quis colar àqueles jovens é que resultou pífio, porque entretanto se juntaram a eles milhares de portistas de várias idades e tipos de cabelo, incluindo a Catarina, que foi ali dizer que tomava banho e usava perfume caro e também estava na manifestação — e nasceu uma estrela. E nada foi destruído na Praça D. João I ou em volta, portanto arruaceiros e vândalos eles também não são.
Uns dias depois a polícia interveio em Lisboa. Houve força bruta contra jovens que dormiam, houve 55 detidos e houve indignação suficiente para uns dias depois, no sábado, se juntarem 25 mil pessoas a defender o direito à habitação, mas também o direito de reunião e de manifestação em lugar público, que a Constituição nos garante desde que decorram de forma pacífica, sem armas e sem perturbar a ordem e a tranquilidade públicas. Tudo isto foi cumprido pelos jovens em Lisboa e no Porto. Mas o executivo embicou com as tendas. Que careciam de licença.
Quando ouvi isto, a minha cabeça desandou imediatamente para um filme que tinha visto havia três meses, A Piscina, o Tanque, o Atrelado & o Dono Deles, cujo protagonista o jornalista Luís Osório louvou nestes termos: “bandido bom que suja as mãos, se dá com matadores e traficantes, prostitutas e chulos”. E eu pensei: Eh lá, temos Michael Mann! Mas não falemos de cinema. Falemos antes das tendas na Praça D. João I e na Praça do Rossio, que não estavam lá para alguém acampar mesmo, mas como símbolo legítimo de um protesto.
Se os ocupantes fossem turistas, empreendedores da Web Summit ou jovens para uma Jornada Mundial da Juventude (“Conseguimos! Conseguimos!” Ah, good times...), desconfio que até se dava um jeitinho, agora jovens que “não tomam banho, não se depilam, usam piercings e pintam o cabelo”? E, juntando a isto uma achega do sempre desinteressante deputado presidente do partido pendura, que até chegou a ministro (imagine-se!), manifestantes que “falam com o sotaque brasileiro ou de outras paragens”. Não levem a peito, manifestantes brasileiros: também lhe faz espécie o castelhano em Olivença. Não estais sós.
Mas a manifestação de 24 de outubro em Lisboa: foi uma festa. Celebrámos tudo de bonito que a liberdade (o ideal, não a avenida) nos deu. Havia velhos e novos, cabelos de vários tamanhos e cores — e piercings, incluindo esses nas orelhas que se chamam brincos! Não sei quem ali terá tomado banho ou não porque (alegadamente), ao contrário do deputado Champô........
