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A sexta carta de José Luís Carneiro a Luís Montenegro

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25.02.2026

O Senhor Primeiro Ministro

Esta é a sexta carta que lhe escrevo, após cinco tentativas que não obtiveram resposta. É notório que o Senhor Primeiro Ministro ignora o custo de vida dos portugueses, porque continua a mostrar-se insensível à fortuna que eu já despendi em cartas registadas com aviso de recepção. O funcionário dos CTT do Rato, a partir da terceira carta, começou a olhar para mim pesarosamente. Prevejo que, quando hoje for deixar lá este envelope, me dê um abraço e me diga "tu mereces melhor, José Luís". Académicos da literatura já lhe chamam "o pior romance epistolar da História". Apesar de tudo, Senhor Primeiro Ministro, insisto em nome do interesse da nação. E em nome do interesse da nação em mim. Que, por ora, é pouco.

Nas últimas cartas que lhe enderecei, compilei uma série de propostas que podem ser transformadoras para o país. Se as tiver lido, terá concluído que são, de uma forma geral, ideologicamente indistrinçáveis das do seu governo, mas com menos piscares de olhos ao Chega e sem tanta ânsia neoliberal de sugar direitos aos trabalhadores. Em todo o caso, não compreendo a sua relutância em responder-me. Será por causa do meio? Preferiria um contacto mais informal? É capaz. Os socialistas têm por hábito enviar cartas quando deviam usar o Whatsapp e enviar Whatsapps quando deviam enviar cartas.

É preciso que esclareça o país sobre o caso da sua habitação em Espinho. Quer dizer, talvez seja melhor não o fazer. É que, quando o senhor primeiro-ministro começa a esclarecer, revela dados cada vez mais suspeitos. E se vossa excelência se põe a revelar dados cada vez mais suspeitos, o seu governo fica em causa. E da última vez que Vossa Excelência revelou dados suspeitos e o seu governo ficou em causa, o meu antecessor bem que se lixou. Mantenha-se em silêncio, caso contrário os seus escândalos ainda acabam com a minha carreira política.

Se não me responder a esta carta, eu vou enviar-lhe uma sétima carta. E se não me responder à sétima carta, eu vou enviar-lhe uma oitava carta. E se não me responder à oitava carta, eu vou enviar-lhe uma nona carta. E se não me responder à nona carta, eu vou enviar-lhe uma décima carta. E se não me responder à décima carta, eu chumbo-lhe o Orçamento. Estou a brincar. Encontro-me de pés e mãos atadas. Não desejo eleições nem por nada. É que a paciência tem limites. Só que os da minha são muito extensos. No mínimo, duram até 2029.

Abstendo-me violentamente de mais considerações, subscrevo-me com os melhores cumprimentos,


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