O corpo não é um semáforo: nem toda a dor faz mal, nem todo o prazer faz bem
Imagine três momentos comuns. De manhã, alguém sobe a pé uma rua íngreme de Lisboa ou do Porto e sente as pernas a arder. Ao almoço, bebe um copo de vinho e come uma sobremesa, sentindo prazer quase imediato. Ao fim do dia, continua a trabalhar sem sentir absolutamente nada de especial, apesar de poder ter a tensão arterial elevada.
Se avaliássemos a saúde apenas pelas sensações, concluiríamos que o exercício fez mal, que o vinho e o doce fizeram bem e que a tensão arterial não merece atenção. As três conclusões podem estar erradas.
A dor, o prazer e a ausência de sensação são informações importantes, mas não são veredictos. O corpo não funciona como um semáforo em que a dor significa sempre vermelho, o prazer significa sempre verde e o silêncio significa que não se passa nada.
A dor é um alarme, não um diagnóstico
A dor tem uma função essencial. Faz-nos retirar a mão de uma superfície quente, proteger um tornozelo lesionado ou procurar ajuda perante uma infeção. Sem dor, acumularíamos ferimentos sem sequer percebermos.
Mas sentir dor não prova, por si só, que existe uma lesão grave. A Associação Internacional para o Estudo da Dor define-a como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela que está associada, a lesão real ou potencial. Esta formulação é importante: pode existir dor sem dano atual dos tecidos e pode existir dano sem dor imediata. A dor é sempre real para quem a sente, mesmo quando os exames não encontram uma explicação simples (IASP).
Uma dor aguda depois de uma queda pode ser um sinal útil. Uma dor crónica, pelo contrário, pode continuar depois de a lesão inicial ter cicatrizado, devido a alterações no próprio sistema nervoso. Nesses casos, “aguentar” não é necessariamente sinal de força e a dor pode tornar-se um problema de saúde por direito próprio.
Também é necessário distinguir dor de desconforto. Durante uma caminhada rápida, uma corrida ou uma sessão de ginásio, é normal o coração acelerar, a respiração tornar-se mais intensa, a temperatura subir e os músculos ficarem cansados. Algumas pessoas sentem ainda dor muscular ligeira no dia seguinte, sobretudo quando começam uma atividade nova.
Isso não significa que o exercício esteja a fazer mal. A Organização Mundial da Saúde recomenda aos adultos entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física moderada, porque o movimento regular ajuda a prevenir e a controlar doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras doenças crónicas (OMS).
Mas a velha frase “no pain, no gain”........
