Tendas, bastões e bom senso em (quase) parte nenhuma
Preocupa-me a dificuldade em conseguir uma casa. Preocupam-me as imagens de confronto. Preocupa-me, sobretudo, a facilidade com que uma carga policial se transforma num teste de simpatia política: antes de percebermos o que aconteceu, queremos saber quem estava do outro lado.
Foi o que voltou a acontecer na madrugada de 25 de Outubro. Depois de mais de duas horas de ordens para retirar as tendas, a PSP desfez as acampadas pela habitação no Rossio e no Porto. Houve feridos dos dois lados e imagens que ninguém gosta de ver. Não obstante, convém manter a proporção: os protestos foram, no essencial, pacíficos e Portugal não vive a guerra de rua de França.
Sou de direita (e não peço desculpa por isso), valorizo a autoridade do Estado e respeito as forças de segurança. Manifestações, sim, sempre: trinta dias, trezentos dias, três anos, um dia depois do outro. Ocupação do espaço público por tempo indeterminado, não. A lei e a ordem existem para proteger o direito de manifestação e, ao mesmo tempo, os direitos de quem vive e trabalha naquelas praças. Manifestações, sim; acampadas, não.
Dito isto, a memória obriga a uma pergunta incómoda. No passado, outros protestos foram bem mais duros do que estas acampadas. Vimos de tudo, numa panóplia digna de antologia: grades derrubadas, escadarias ocupadas, petardos, pneus a arder e estradas cortadas, muitas vezes por quem tinha boas razões para estar zangado. Na maior parte desses casos, o Estado preferiu negociar a carregar. Fez bem, porque evitou males maiores.
Não me lembro, contudo, de ver quem hoje se descobre tão apaixonado pela mão forte a exigir cargas e detenções. A ordem pública era então uma senhora compreensiva, de uma paciência quase franciscana, habituada a negociar e a........© Expresso
