Direitos das mulheres: o sinuoso caminho de uma luta inacabada
Apesar das conquistas celebradas, continuamos a assistir a retrocessos nos direitos das mulheres, sobretudo num contexto em que alguns procuram reduzir a defesa dos direitos das mulheres, a sua emancipação, participação e direito de escolha a uma mera “ideologia woke”, ignorando que a cultura do ódio contra as mulheres mata.
Em Portugal, só no ano passado, dos 23 casos de morte em contexto de violência doméstica, 21 eram mulheres e duas eram crianças. Tudo isto num universo de mais de 29 mil denúncias, a sua larga maioria com rosto feminino.
Bem sabemos que a desigualdade de género assenta em múltiplos fatores: sociais, culturais, económicos e até religiosos. Mas não podemos permitir que este fosso de desigualdade teime em não diminuir e se torne inultrapassável.
As políticas públicas e o poder legislativo são instrumentos fundamentais para diminuir esta disparidade estrutural.
Não é à toa que insistimos em medidas como a igualdade da licença parental 100% remunerada e partilhada entre progenitores; nas quotas de género, sobretudo nos cargos de liderança; na igualdade salarial; e no apoio a doenças silenciosas, mas incapacitantes, como a endometriose ou adenomiose.
Mas eliminar a invisibilidade a que as mulheres historicamente tantas vezes são remetidas também é um passo. Atualmente, somos frequentemente confrontados com referências históricas de descobertas ou invenções de mulheres, roubadas por homens que reclamaram a sua autoria.
O lugar das pessoas na história nem sempre é fruto da “meritocracia” e menos ainda da igualdade de oportunidades, muito pelo contrário.
Maria de Lourdes Pintassilgo lembrava-nos que “o feminismo não é a luta das mulheres contra os homens: é a luta das mulheres pela sua autodeterminação; é o processo de libertação de uma cultura subjugada; é a conquista do espaço social e político onde ser mulher tenha lugar.”
São palavras que se mantêm atuais. Basta vermos os recentes incidentes provocados na Assembleia da República, quando a vice-Presidente da Assembleia, Teresa Morais, legitimamente presidia aos trabalhos.
Após mais um episódio que culminou com a ausência do Chega da sala do plenário, quando a vice-Presidente estava precisamente a defender outras mulheres, a cadeira da Presidência, no dia seguinte, foi ocupada não por Teresa Morais, mas por Pacheco Amorim e Rodrigo Saraiva!
Coincidência ou não, uma coisa é certa, são quase sempre as mulheres que têm de ceder o lugar. Já que o patriarcado continua nesse lugar muito confortável, que é o seu status quo!
Celebramos as conquistas, mas sinuosos são os caminhos da luta pela igualdade e pelos direitos das mulheres.
