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Onde está Ocidente?

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tuesday

O mundo parece estar a ficar de novo essencialmente bipolar. A estratégia americana, da Venezuela a Cuba passando pelo Irão e pela Gronelândia, tem sempre a China em mente. Os Estados Unidos, sejam os de Trump, sejam outros quaisquer, querem limitar a ascensão da China, restringir-lhe acesso a matérias-primas, aumentar-lhe os custos energéticos, diminuir o desenvolvimento tecnológico, limitar-lhe mercados, evitar a expansão do yuan, e limitar-lhe alianças (é assim alguns explicarão a aproximação à Rússia).

Nada disto seria um grande problema para a Europa se, como na Guerra Fria, a Europa e os Estados Unidos, mesmo tendo interesses e Histórias diferentes, partilhassem a mesma percepção das ameaças e a mesma perspectiva do mundo. Mas não é o caso.

Durante a Guerra Fria, europeus e americanos consideravam a União Soviética a principal ameaça à sua segurança e aos seus interesses e o oposto do seu modelo político. O pressuposto da NATO era esse.

Agora, a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos considera que a Rússia parece ser um problema dos europeus. “Como resultado da guerra da Rússia na Ucrânia, as relações europeias com a Rússia estão agora profundamente atenuadas, e muitos europeus consideram a Rússia uma ameaça existencial. Gerir as relações europeias com a Rússia exigirá um envolvimento diplomático significativo dos EUA.” Ora, se os EUA não consideram a Rússia uma ameaça à sua segurança, nem a ameaça russa à segurança europeia uma ameaça aos seus interesses, no que é que somos aliados militares? Se esse pressuposto da aliança já não existe, sobra o quê? A ideologia não é.

A alternativa é, logicamente, a China ser o problema comum. Se europeus e americanos olharem para a China como uma ameaça ao seu mundo, ao seu modelo, ao seu domínio, o adversário comum será o cimento da nova aliança (e a Rússia um problema dos europeus, segundo os americanos). Há, porém, um problema fundamental nesse alinhamento.

Quando, em 2019, a Europa definiu a China como parceiro, competidor e rival, foi a rivalidade sistémica que se destacou. Para os europeus, não é apenas o crescimento económico da China que os preocupa. É sobretudo o resto. A Europa entende que o modelo político chinês é oposto ao europeu, é uma ameaça ao europeu e tem ambições expansionistas. Pequim faz amigos entre países tão não democráticos e desrespeitadores dos Direitos Humanos como a China. Incluindo no Ocidente. Mas não há nesses países partidos políticos alinhados com Pequim, como havia alinhados com Moscovo. Por enquanto.

Ao contrário da América do Século XX, da que entrou nas duas Guerras, da que fez a NATO, da que liderou o mundo do Pós-Guerra Fria, esta América (pelo menos a de Trump, se outra também, logo veremos) não se define pelo alinhamento ideológico com a democracia liberal ocidental. Ao contrário da Europa (por enquanto).

Se europeus e americanos divergirem no fundamental da sua mundivisão, como é que a objecção à China há-de ser suficiente para nos manter unidos?

Cuba, Venezuela e Irão não podem ser olhados isoladamente. A América de Trump não pode ser pensada sem olhar para o ICE, os ataques ao Estado de Direito, à Liberdade de Imprensa, à corrupção moral e económica da liderança política. Proteger fronteiras é legítimo, perseguir populações, espalhar mentiras e promover o ódio é um caminho político oposto ao das democracias liberais. Fazer cair ditaduras e teocracias é meritório. Mas fazê-lo sem defender o modelo democrático liberal torna o exercício numa mera expansão de poder. Nem as intervenções militares ou políticas se podem apreciar desligadas do propósito, nem o Império pode ser apreciado sem o seu regime ser julgado. Se não pensamos o mesmo sobre como exercer o poder, seja dentro seja fora de casa, se não vemos os mesmos perigos nem temos os mesmos valores, como é que somos aliados?

O mundo dividido em dois blocos, sem o cimento ideológico do tempo da guerra fria do lado ocidental, não nos convém, não nos protege e não nos diz nada. Mas para se ser alternativa é preciso mais do que estados de alma ou ambição. É preciso uma economia à altura. E, de caminho, ir mantendo amigos na América. Na expectativa de que a América decida voltar.


© Expresso