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A incógnita das eleições na Hungria

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13.04.2026

Foi tentadora a ideia de escrever sobre o imediatismo destas eleições húngaras. Todos procuramos respostas para as dúvidas criadas pela derrota de Viktor Orbán, depois de 16 anos no poder na Hungria. Desde o impacto que esta derrota terá na União Europeia, aos seus efeitos na coesão europeia em tempo de guerra na Ucrânia, e às implicações estratégicas de uma Budapeste menos propensa ao bloqueio em Bruxelas.

Porém, e apesar da tentação, era muito provável que muitos – e bons – analistas e politólogos fizessem análises e comentários orientados para esses domínios da questão. Por isso, foquei-me numa convicção que creio impor-se mais do que nunca: não é possível compreender verdadeiramente o presente sem regressar ao passado.

No caso da Hungria, esse passado não é um pano de fundo assim tão distante que o possamos considerar inútil para enquadrar e entender a eleição do passado domingo à luz da cultura democrática húngara (ou das suas fragilidades) tal como ela foi moldada ao longo do século XX.

Apesar de uma certa tendência da análise política europeia nesse sentido, os resultados de um ato eleitoral não devem ser lidos exclusivamente à luz da conjuntura: ciclos económicos, lideranças, campanhas. No caso húngaro, essa leitura é insuficiente. A Hungria contemporânea continua a ser, em larga medida, um produto da experiência traumática do século XX, em particular do período de integração forçada no espaço soviético.

A derrota de Viktor Orbán é uma oportunidade que convida a uma revisitação histórica desse período e da relação da sociedade civil húngara com o poder, a soberania e a própria ideia de liberdade.

Se se pode falar num momento fundador da memória coletiva húngara, esse momento é a revolta de 1956, não apenas como episódio histórico, mas como matriz de identidade política. Durante semanas, a sociedade civil húngara desafiou abertamente a ordem imposta por Moscovo, ensaiando uma rutura que rapidamente foi esmagada pela intervenção militar........

© Expresso