A incógnita das eleições na Hungria
Foi tentadora a ideia de escrever sobre o imediatismo destas eleições húngaras. Todos procuramos respostas para as dúvidas criadas pela derrota de Viktor Orbán, depois de 16 anos no poder na Hungria. Desde o impacto que esta derrota terá na União Europeia, aos seus efeitos na coesão europeia em tempo de guerra na Ucrânia, e às implicações estratégicas de uma Budapeste menos propensa ao bloqueio em Bruxelas.
Porém, e apesar da tentação, era muito provável que muitos – e bons – analistas e politólogos fizessem análises e comentários orientados para esses domínios da questão. Por isso, foquei-me numa convicção que creio impor-se mais do que nunca: não é possível compreender verdadeiramente o presente sem regressar ao passado.
No caso da Hungria, esse passado não é um pano de fundo assim tão distante que o possamos considerar inútil para enquadrar e entender a eleição do passado domingo à luz da cultura democrática húngara (ou das suas fragilidades) tal como ela foi moldada ao longo do século XX.
Apesar de uma certa tendência da análise política europeia nesse sentido, os resultados de um ato eleitoral não devem ser lidos exclusivamente à luz da conjuntura: ciclos económicos, lideranças, campanhas. No caso húngaro, essa leitura é insuficiente. A Hungria contemporânea continua a ser, em larga medida, um produto da experiência traumática do século XX, em particular do período de integração forçada no espaço soviético.
A derrota de Viktor Orbán é uma oportunidade que convida a uma revisitação histórica desse período e da relação da sociedade civil húngara com o poder, a soberania e a própria ideia de liberdade.
Se se pode falar num momento fundador da memória coletiva húngara, esse momento é a revolta de 1956, não apenas como episódio histórico, mas como matriz de identidade política. Durante semanas, a sociedade civil húngara desafiou abertamente a ordem imposta por Moscovo, ensaiando uma rutura que rapidamente foi esmagada pela intervenção militar soviética. A repressão que se seguiu não foi apenas física, mas também psicológica e estrutural. Criou-se um sistema onde a dissidência era punida, mas também onde a adaptação se tornava uma forma de sobrevivência.
Esse legado teve consequências duradouras. Ao contrário de outras sociedades do então denominado Bloco de Leste, onde a oposição se organizou de forma mais visível e contínua, na Hungria consolidou-se uma cultura política ambivalente: simultaneamente desconfiada do poder e cautelosa na sua contestação. A chamada “normalização pós-1956” assentou num pacto tácito: alguma abertura económica e relativa previsibilidade social em troca de conformismo político.
É neste contexto que importa situar as escolhas dos húngaros nas últimas décadas. A transição pós-1989 não foi apenas uma passagem para a democracia liberal. 1989 foi um momento de redefinição identitária. A memória do domínio soviético alimentou uma valorização intensa da soberania nacional, mas não necessariamente uma adesão inequívoca aos modelos políticos ocidentais. Essa tensão entre abertura e proteção, entre integração e autonomia, permanece, aliás, no centro da política húngara até aos nossos dias.
Viktor Orbán soube interpretar e explorar essa ambivalência. A sua ascensão e consolidação no poder assentaram em grande medida numa leitura histórica da sociedade húngara: um país sensível à ingerência externa, cético em relação a estruturas supranacionais e permeável a discursos que combinam segurança, identidade e estabilidade. Ao longo dos anos, Orbán apresentou a União Europeia como uma entidade que, embora distinta de Moscovo, poderia reproduzir dinâmicas de imposição externa (tal como Moscovo!)
Essa narrativa encontrou ressonância precisamente porque dialogava com memórias profundas. Para uma parte significativa da sociedade húngara, a experiência soviética não é apenas um capítulo encerrado, mas uma lente através da qual se interpretam pressões contemporâneas. Daí a facilidade com que discursos de soberania ganham tração, mesmo quando articulados em contextos democráticos.
Mas a História não é estática e o resultado das eleições do passado domingo sugere uma reconfiguração dessa relação com o passado. A derrota de Orbán indica que a sociedade civil húngara, embora marcada por traumas históricos, não está condenada a reproduzir indefinidamente os mesmos padrões políticos. Há sinais de uma geração mais urbana, mais exposta a dinâmicas europeias e menos condicionada pelas memórias da Guerra Fria.
Isso não significa, porém, uma rutura com a História. Pelo contrário, a própria vitória de Péter Magyar pode ser lida como uma expressão dessa herança. A sua ênfase em transparência, legalidade e reforma institucional reflete, de algum modo, uma reação ao tipo de concentração de poder que a sociedade húngara aprendeu a reconhecer e a temer ao longo do século XX.
Os laços entre a Hungria e a Rússia ilustram bem esta complexidade. Se, por um lado, existe um trauma histórico associado à intervenção soviética e à limitação da soberania nacional, por outro subsiste uma relação pragmática, por vezes até ambígua, com Moscovo. Durante o período de Orbán, essa ambivalência traduziu-se numa política externa que evitava confrontos diretos com o Kremlin, mesmo em momentos de elevada tensão europeia.
Essa postura não pode ser dissociada da História. A proximidade geográfica, a dependência energética e, sobretudo, a memória de um passado em que a Rússia (ou a União Soviética) era uma presença incontornável, contribuíram para moldar uma atitude cautelosa. Para muitos húngaros, a relação com Moscovo não é apenas ideológica, mas é também estratégica e, em certo sentido, inevitável.
Ao mesmo tempo, o trauma de 1956 continua a funcionar como um limite simbólico. Existe na sociedade civil húngara uma consciência histórica do custo da subordinação que impede uma aproximação plena ou acrítica à Rússia. Essa tensão entre memória traumática e pragmatismo político é uma das chaves para compreender a posição húngara no contexto europeu recente.
É precisamente aqui que o passado encontra o presente europeu. A derrota de Orbán tem implicações que ultrapassam largamente a política interna húngara. Durante anos, Budapeste foi um dos principais pontos de bloqueio dentro da União Europeia, recorrendo ao veto ou à sua ameaça em momentos críticos, nomeadamente no apoio à Ucrânia e na definição de regimes de sanções contra a Rússia. Esse comportamento não pode ser desligado da História: trata-se de uma cultura política marcada pela defesa da soberania e pela desconfiança a reagir a imposições externas.
Uma nova liderança em Budapeste não apagará esse legado, mas poderá reinterpretá-lo. Se a memória histórica ensinou cautela, também ensinou os custos do isolamento e da subordinação. Nesse sentido, a vitória de Péter Magyar pode abrir espaço a uma Hungria mais previsível no contexto europeu, menos inclinada para o bloqueio sistemático e mais disponível para a negociação. Num momento em que a União Europeia enfrenta um conflito armado no seu flanco oriental, esta mudança, ainda que gradual, poderá ter efeitos concretos na sua capacidade de ação.
Péter Magyar herda, assim, não apenas um sistema político, mas um legado histórico complexo. A sua margem de manobra será condicionada por essa herança, pelas expectativas de uma sociedade que valoriza a estabilidade, mas que começa a exigir maior responsabilização, que desconfia do poder, mas que reconhece a necessidade de instituições fortes.
No fundo, estas eleições mostram que a História não determina, mas molda. A Hungria de 2026 continua a dialogar com o seu passado soviético, com os seus traumas e com as suas adaptações. Mas a mesma Hungria demonstra também que esse passado pode ser reinterpretado, reavaliado e, quiçá, ultrapassado.
Budapeste muda de liderança, mas a questão mais interessante é saber até que ponto muda de relação com a sua própria História.
